quinta-feira, 15 de março de 2007

Cthulhu Ftaghn! Ph'nglui mglw'nafh Chtulhu R'lyeh wgah-nagl ftaghn!

Hoje faz 70 anos desde a morte de Lovecraft e certamente não poderia deixar passar batida essa chance/possibilidade de falar sobre tão brilhante escritor. Lovecraft enquanto vivo não publicou muitos trabalhos e muito menos conquistou renome pelas suas obras. Encontrou durante toda a sua carreira como escritor, inúmeras dificuldades tanto relacionadas à sua saúde quanto à credibilidade de sua obra. Certamente era o que poderia ser definido por Kafka como “Um Artista da Fome”. Não escrevia unicamente pelo dinheiro ou qualquer forma de notoriedade na sociedade, mas sim, por crença em seus altos ideais literários. Lovecraft sempre se julgou um escritor medíocre. Outra ressalva que acredito ser importante mencionar é o fato de Lovecraft ter criado um grupo de escritores o qual acabou por receber a alcunha de Círculo Lovecraft, que tinha como finalidade escrever sobre o mito de Cthulhu e seu panteão. Aqueles que têm conversado comigo nos últimos dois anos sabem, que esta idéia do círculo de escritores que Lovecraft criou, acabou por levar-me a criar o Circ. HDK, o qual eu tenho um imenso prazer em fazer parte. Quem sabe dentro de algumas décadas um dentre todos os que fazem parte deste círculo revele ser detentor de uma qualidade literária tão impecável e profunda quanto Lovecraft? Talvez a Cinthia com sua habilidade descritiva, ou talvez a Amanda com sua capacidade de aprofundar-se ao tratar de sentimentos e por que não o Matias com suas histórias "ambíguas" e psicológicas? Quem poderá dizer? Certamente Lovecraft não sabia o ícone que viria a se tornar, mas certamente a obra deixada por ele influenciou e influenciará várias gerações assim como me influenciou a ponto de eu ter criado algo amplamente inspirado nas histórias desse mestre na arte de escrever contos. Com vocês minha parca homenagem a este colossal escritor que mesmo tardiamente recebeu o reconhecimento merecido. Para maiores informações sobre este grande escritor recomendo o artigo sobre ele na Wikipédia.



"That is not dead which can eternal lie, and with strange aeons even death may die."

H.P. Lovecraft


Nas Profundezas.

Recordo-me ainda, com imenso pavor, de um fato que vivi, em uma noite onde deparei-me com aquilo que nos ronda constantemente. O sol já havia jazido no poente e a cortina do incerto se fechara no horizonte. Os raios álgidos e pálidos da lua tocavam as águas da baía, convocando adormecidos habitantes a virem a tona, para celebrar o seu mórbido espetáculo natural. Naquela funesta e sombria noite, me encontrava defronte para aquelas estranhas águas, parado acima de um rochedo alcantilado, tomado por fungos que espalhavam-se com segmentos de temíveis tentáculos, ocultos pelas profundezas dos oceanos.
Vislumbrei o horizonte, o qual a chama já era extinta, e entreguei-me a contemplar os confins do infinito, através das cintilantes estrelas dispersas no firmamento. Nesse distante horizonte, onde o tempo não alcança, indaguei com imprudência e ouvi respostas inconcebíveis. E então, a brisa eterna, detentora dos segredos, suspirou-me em melodias o que não nos é sabido. Aturdido em devaneios, ponderei sobre as respostas ouvidas em tal momento. A brisa ainda soava, naquela linguagem já esquecida e confidenciou sem qualquer receio o quanto somos ínfimos. Revelou-me na cantoria, sobre os altos cumes e confins profundos, sobre o ar, a terra e até mesmo o espaço onde ancestrais deuses habitam em estado onírico.
Vi com horror os antigos deuses e mesmo perdido na imaginação, senti o imenso poder que carregam desde os primórdios da criação. Tornei então à realidade e percebi que permanecia impávido sobre o rochedo do farol antigo, que alumiava com dourado facho profundas águas. A maré segredava um macabro réquiem sem que eu percebesse o perigo oculto e ao bater das águas gélidas nas pedras disformes notei seu luto. O Negrume que se espalhava pela encosta assemelhava-se em coloração como óleo derramado, entretanto não possuía a mesma viscosidade.
Temeroso pelo que minha imaginação dizia-me haver nas profundas águas do oceano, tornei meus olhos acima do firmamento. Em meio a tantos pontos luminosos, encontrei rostos disformes que nos observavam dia após dia, durante toda a nossa existência. O que ganhariam eles com nossas ínfimas vidas, indaguei-me. Talvez fossemos nós a chave para que eles retornassem a reinar em absoluto pelo eterno. Essa sensação, de existir apenas devido ao desejo de algo maior, me fez recuar alguns passos para mais próximo à luz. Duas estrelas brilharam em uma miríade de cores sobre minha cabeça e então estremeci. Teria sido eu descoberto? Teria feito algo que desagradara os eternos? Recuei mais alguns passos e percebi distante no horizonte que uma formação rochosa parecia ganhar altura.
Meu rosto alterou-se num espasmo indescritível e o horror que me adentrara naquele instante, fez-me tentar me afastar o mais rapidamente possível. Mesmo fugindo apavorado daquilo que imaginara ter vislumbrado, fora vencido pela curiosidade e tornei a olhar aquilo que eu acreditara ter se erguido distante. Onde eu acreditava ser um conjunto de colossais rochas afundadas sob as águas tratava-se na realidade de uma pequena parte a armadura natural, que contornava o ombro de tamanha criatura. Não satisfeito pelo meu primeiro erro, observei ao alto uma imensa fronte imutável que despertara de seu sono ancestral. Após essa visão hedionda perdi os sentidos e a noção temporal.
Acordei apenas no dia seguinte com o sol queimando o meu rosto. Algumas pessoas me observavam curiosas. Tornei a olhar para as rochas que moveram-se a noite anterior e lá estavam elas, imóveis, imutáveis e inexoráveis. Estáticas, como eu sempre havia encontrado nos dias anteriores à noite que havia passado. Mas sabia eu que não havia sido um sonho ou uma alucinação. Algo retornara ao seu sono profundo. E ao notar-me tão próximo daquela ameaça, que poderia tornar a se reerguer, corri com todas as minhas forças para o mais longe possível do mar. Todavia, nem minhas pernas nem o mais veloz veículo poderia me levar a algum lugar longe das garras daquilo que eu contemplara com horror na noite anterior. Cada noite subseqüente eu fui tomado por visões e mais visões daquilo que nos espreita nas profundezas de nossas mentes...

Um comentário:

Edson Rossatto disse...

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