Bom primeiramente eu gostaria de me desculpar com meu fiéis leitores (todos os três ou quatro) por eu não ter postado nada ultimamente. Conforme disse um amigo meu: “Quem é triste escreve e quem é feliz vive.” Acho que a frase anterior resume o meu “status-quo” estranhamente eu ando muito contente com tudo, mesmo procurando, ou acreditando ter, muito motivos para me lamentar. Todavia não pensem que minha pretensiosa carreira literária chegou ao fim. Certamente nada poderia estar mais distante da verdade. Tenho pensado ultimamente em escrever um Elogio à Escrita, seguindo a mesma linha de Erasmo de Rotterdam ao escrever Elogio à Loucura (Ou se preferirem, Elogio da Loucura, conforme algumas versões em português). Para que eu possa retornar aos antigos moldes de contos e poesias eu preciso de algum baque novamente, algo que me faça sentir algum tipo de pesar e eu não pretendo tê-lo tão brevemente. Não vejo necessidade nem tenho a urgência de criar o ambiente para escrever. Antigamente eu colocava algumas músicas escolhidas a dedo que abriam algumas feridas mal cicatrizadas e tudo se resolvia, mas não agora, acho que não seria pedir demais querer usufruir um pouco desse êxtase. Algumas pessoas diriam “Wouldn’t it be Nice” ler algo novo de minha autoria? Eu respondo: Talvez. Mas deixem-me aproveitar um pouco mais desse "statu quo ante bellum" que quando minha guerra pessoal surgir novamente, eu certamente produzirei muitas linhas mais. Vou postar a seguir um texto (de minha autoria, como os demais) que eu gostei do resultado final. É um texto antigo eu ja o escrevi a um bom tempo e eu nao tenho a menor idéia do por que postar ele hoje, mas mesmo assim irei fazê-lo. Com vocês, O Gotejar.
PS. Para marcar parágrafo eu deixei uma linha, já que o espaçameno do Word não é adicionado ao colar para postar no blog.
O Gotejar
Deitado numa cama, em meio as cobertas bagunçadas ele se encontrava. Com os olhos perdidos na infinidade do teto, pensava sobre os anos que haviam transcorrido. O único som que rompia o silêncio era um intermitente gotejar. Os braços cruzados atrás da cabeça, revelavam a tranqüilidade que o rapaz se encontrava. Numa expressão serena e um sorriso no canto da boca, fitava um pequeno inseto a andar meticulosamente de um lado ao outro. Num cinzeiro, um cigarro queimava a um certo tempo, acumulando uma cinza rarefeita que se desmanchava aos poucos.
O quarto tomado pela escuridão, não parecia preocupar-lhe. Os monstros de antigamente, que habitavam seus sonhos, já haviam sidos desfeitos, desaparecidos como a fumaça do cigarro, que se dissipava lentamente na penumbra. Ficou ali em silêncio, apenas a imaginar. Pensava em tudo que havia conquistado e perdido. A única coisa que o forçava retornar a realidade, era o maldito e ininterrupto gotejar. Cada pingo parecia explodir aos seus ouvidos, mas ele ainda assim estava relaxado demais, para pensar em fazê-lo parar.
Ele sempre fora um rapaz atraente. Poderia ter todas as mulheres que quisesse, mas nunca desejava nenhuma. Não que não gostasse de mulheres, mas apenas não suportava a idéia de perder a sua liberdade e viver em prol de alguém. Namoradas? Sim claro, ele tivera algumas. Havia recém saído de um relacionamento, o qual gostava de definir como conturbado e não queria saber de mais nada no momento. Pretendia apenas aproveitar cada instante de sua liberdade. O certo é que ele nunca amou. Nunca conseguiu sentir-se preso a alguém de uma forma subserviente. Sempre conseguia tornar o alvo de suas paixões, um mero fantoche que gostava de brincar, e quando se cansava, simplesmente retirava completamente da sua vida.
Assim havia sido o seu último relacionamento. Dizia as mais belas palavras, apenas para obter o que queria. Jogava com suas emoções. Fingia ciúme, amor, ódio e tristeza. Sempre fora hábil em mentir. Era um ator por natureza. Sempre tivera o dom de convencer as pessoas, de tudo que quisesse. Mas nunca parecia ser o bastante... Não conseguia compreender por que todas elas precisavam de tanto. Nunca se satisfaziam com o que ele as oferecia. Elas sempre acabavam por pedir mais e mais.
Se ele simulasse amizade, elas queriam paixão, se fosse paixão pediam amor, se fosse amor seria escravidão, condição a qual, o causava imensa repulsa. Ah se cada um pudesse levar a sua própria vida. Viver apenas para si mesmo e não pelos outros, certamente haveria bem menos complicações a serem resolvidas. Talvez tivesse até mesmo resolvido esse maldito gotejar.
Assim lentamente, cada gota caía. Uma a uma, e a cada ruído que elas causavam, vinha a tona mais uma memória. Ciúmes. Essa era a que revestia suas lembranças. Não ciúmes que ele tivesse sentido, ele realmente não possuía tal sentimento, mas os ciúmes que a ele era oferecido, que o atormentava. Ah se elas soubessem. Ele nunca havia se importado, existir ou não outras, não fazia a menor diferença. Sejam mais ou menos belas, ainda assim ele conseguia enxergar nos olhos de cada uma, muito além.
Conseguia penetrar nos sentimentos, medos, angústias de cada uma, com meras palavras. E assim ele as escolhia. Visualizava a qual seria mais facilmente enganada. Preferia as ingênuas, pois estas dariam menos trabalho e seriam mais facilmente descartadas. A ingenuidade o atraia como mariposas à luz. Gostava de sentir o gosto de magoar alguém que pudesse ser tão puro. Ele realmente acreditava que assim talvez conseguisse ensinar algo. Que ninguém é bom. Somos todos apenas meras e rubras máscaras, aguardando pelo badalar da meia noite, para cumprirmos com nosso papel.
E hoje, ele pusera a máscara de forma esplêndida. Nunca havia pensado que conseguiria chegar tão baixo quanto hoje. Valeu-se de dores e marcas profundas, daquela que a amava, para causar mais estrago. No fim acabaram por fazer um acordo e nesse acordo, constava apenas que eles nunca mais se encontrariam. Claro que a estúpida garota pensava diferente. Ela tinha a plena certeza que voltaria a vê-lo, mas esta nunca fora a intenção do jovem. E agora ele estava ali, e ela distante como nunca. Mal chegava aos pensamentos dele, se não fosse o maldito gotejar.
Novamente mais uma gota se esfacelou ao chão e outra memória trouxe consigo. Essa já não era tão desagradável como foram as demais. Ele até ponderava que pudesse ter sido aprazível, alguns poucos momentos que viveram juntos. Mas ainda assim não eram bons o bastante, para lhe causarem qualquer tipo de remorso. Ele recordava-se da jovialidade dela.
Ah sim, nesses momentos ela deixava transparecer a inocência de uma forma encantadora. O modo de olhar, sem nenhuma intenção, que demonstrava tão abertamente felicidade. O sorriso largo, que parecia pedir por compaixão. Os cabelos esvoaçantes refletindo o dourado de um belo dia de sol. A grama verde a se espalhar pelo parque, num infinito de memórias aprazíveis, que agora avassalavam as lembranças dele.
“Ah esse maldito gotejar! Por que não cessas?” – pensou o rapaz. Mas não. Continuava impiedoso, marcando o tempo o qual terminara com ela. Cada gota trazia mais e mais memórias à sua mente. Não conseguia suportar mais tamanha passividade e obrigou-se a levantar. Caminhava agora de um lado ao outro, sem conseguir parar de relembrar e relembrar. Cada momento, cada instante. Não mais podendo suportar o maldito ruído, que insistia em explodir em sua cabeça uma torrente de lembranças, andou até o banheiro. Abriu bem a torneira e encheu as mãos de água. Jogou contra o rosto, deixando a sensação do frio, cortar-lhe as recordações. Repetiu a ação algumas vezes. E na última apertou as mãos contra a face.
O que eu fiz... Apenas isso pensava agora. Nenhum gotejar se ouvia, apenas o som da água que jorrava pela torneira provocava um leve ruído. Descobrira tarde demais, que havia se desfeito da única pessoa que talvez tivesse amado em toda vida. Percebeu que começava a sentir realmente e não simular fazê-lo. Notou que aprendera a amar. Incrédulo do que havia feito, andou novamente até o quarto e observou a cama. Ali estava o seu lugar, as cobertas bagunçadas e os travesseiros brancos empilhados um acima do outro.
Ao seu lado, estava apenas o resto do que fora a sua paixão. Ali jazia uma jovem com os pulsos que gotejaram sangue. As gotas agora eram mais raras e suaves, não tão irritantes quanto foram outrora, mas certamente mais dolorosas. Já não havia mais força o bastante para expelir o sangue como antes. Restava apenas a passividade da morte e não o fulgor do morrer. Assim ele a viu. Caída, sem vida. Crente que iria encontrá-lo em algum lugar. Crente que ele faria o mesmo, conforme haviam combinado. Ela morrera por ele, mas ele agora sofreria por ela.
Um comentário:
Textos como esse se encaixam em seu rosto. São cicatrizes que marcam a sua pele.
Não há dúvida de que foi você quem os fez... não há dúvida.
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