Bom, nao sei muito bem o que falar aqui como uma introdução ao conto.. Assim como o anterior, ele é inédito também, sendo que estará sendo visualizado pela primeira vez aqui no Blog. Eu acho que ele fala um pouco de mim e tal... Sei lá, leiam...
Num Reino ao Pé do Mar
Ah, há quanto tempo eu não voltava ao mar. Não contemplava distante as ondas quebrarem na praia e sentia o vento contra o meu rosto... Recordo-me muito bem daquela noite onde a lua erguia-se imensa e vermelha no horizonte, como precursora de um mau agouro. O vento soprava uivante naquele dia, onde não havia nada além de nós. Assim como naquele dia, minhas pegadas marcavam a areia, mas agora não havia os teus passos, apenas os meus. Fora numa noite como essa, num reino ao pé do mar que declarei-me abertamente. Mas você como sempre me falava dos empecilhos que haveríamos de encontrar juntos.
Falava efusivamente que nunca poderia dar certo, de que éramos como dois perfeitos paradoxos idênticos. Um oposto que se completava em imensa sincronia onde as fraquezas de um eram as forças do outro. Yin e Yang, preto e branco, doce e salgado ou se preferir apenas eu e você. Ainda me lembro da noite do luar rubro, onde eu andava pela orla com sapatos lustros e você pisava maciamente na areia, com os pés descalços. Eu ainda a observava impassível, sério, tentando não desmoronar por dentro e você se expondo com tamanha sinceridade e beleza, que fazia-me pensar em render-me à esse voraz ataque aos meus sentimentos.
Ah sim ainda me lembro, eu apoiado numa mureta de cimento, olhando para baixo pesaroso e envergonhado e você com o rosto erguido na minha direção, observando-me com os olhos marejados. Mal sabia você o quanto isso me doía, mas eu não poderia voltar atrás, não podia demonstrar a humanidade contida em minhas letras. Não poderia revelar-me verdadeiramente humano, pois o mundo conhecia apenas o monstro que havia em mim. Não poderia arriscar toda a estrutura confiante, a qual eu meticulosamente construí, por algo que eu sabia ser importante, mas devia aparentar total descaso.
E como se não fosse o bastante todas essas minhas falhas e receios, ainda sabia você que não poderia amar apenas a ti. Como eu sempre falava, eu detinha um grande apreço por tudo, poderia me apaixonar por qualquer coisa num breve instante, nem que fosse apenas para poder odiar aquilo com maior intensidade no instante seguinte. E devido a isso, sabia você que nunca poderia prometer apenas amar a ti. Poderia ser fiel, para todo o sempre, afinal a tortura dessa privação me serviria como material de grande qualidade para as minhas palavras. O que melhor que um amante privado do seu objeto de desejo para fazê-lo sofrer? E o que melhor que a culpa por amar outra, nem que por um instante, para fazer as palavras de culpa surgirem.
Não me compreenda mal minha doce amada, jamais pensei em trair-te a confiança ou amar a outra, mas eu sabia que em dado momento não poderia evitar que tal acontecesse. Sempre fui alguém dedicado às minhas paixões e você sempre soube disso. Nunca escondi nada de ti, sempre fui límpido como as lagrimas que deslizaram pela sua face naquela noite ao pé do mar. Concordo com todos os teus argumentos de que isso não era a vida que desejavas, não tenho como dizer não a um argumento como este. Quem seria eu para falar o que você desejava ou quem eu seria para ir contra a sua vontade? Que tipo de vil egoísta eu seria se tentasse argüir contigo para que continuasse comigo? Que tipo de mentiroso ardiloso me tornaria se a dissesse que amaria apenas a ti, ainda mais quando sabia você muito bem que a minha natureza me impediria de proferir uma mentira tão baixa ou prometer-lhe um confinamento que logo exauriria toda a minha essência?
Não podia tê-lo feito, assim como ainda não posso. E agora encontro-me aqui, nesta mesma praia, ao som das mesmas ondas e sob o mesmo firmamento, mas com um diferente luar, andando contigo em minha lembrança. Ainda me recordo como se fosse ontem os seus pedidos velados por socorro. Ainda vejo você confusa tentando entender por que eu não reagia àquilo tudo. Ainda vejo você demente pelo seu blefe ter falhado de uma forma tão colossal. E acima de tudo, ainda vejo o seu vestido nas rochas abaixo do farol, coberto de um matiz vermelho, que desejava eu ser apenas o reflexo da lua imensa que se apresentava no horizonte...
Um comentário:
Lua vermelha é assim... ou de sangue, ou de rubi... depende só do que se passa pela sua cabeça! ;-)
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