Essa ausência total de palavras tem me causado certo desconforto. Eu realmente tenho escrito algumas coisas, mas nada que eu possa postar aqui no blog, então acabei optando por colocar um conto antigo aqui. Mesmo sendo algo escrito a algum tempo, acredito que mais de um ano, algumas coisas nele continuam exatamente como na época em que o escrevi. Por algum motivo curioso eu considero este o meu melhor conto, embora saiba que ele não possua nem mesmo uma fagulha da qualidade (em termos de morfologia do conto) de meus trabalhos recentes como “O Pianista” e os demais que escrevi nessa época. Esse conto me atrai tanto, acho eu, devido ao “feeling” que encontro nele. Espero que apreciem.
Lua
Ah minha bela Lua, formosa em tuas formas e curvas. Alva, serena e ao mesmo tempo capaz de mover os mares. Os fios negros que envolvem o teu pálido rosto e o frescor de tua presença atenuam os meus sentimentos por ti. Aqui me encontro eu, apenas a contemplar-te. Prostrado sobre uma lápide apenas a apreciar os teus encantos. Sentado em meio a corpos gélidos, entre os quais o teu tornas-te o mais frio. Os lábios que outrora eram quentes e ávidos, agora são álgidos e fúnebres. Por ti, minha bela Luna, caio em desespero, receando a cada dia que passa não mais poder louvá-la e perecer sem teu vislumbre. Estremeço ao imaginar o que me aguarda quando juntar-me a ti e fulgurar como apenas mais uma estrela, em um céu que a ti pertence.
Assim o que resta a mim, senão a dor de saber que teu toque não mais terei e teu sorriso não mais verei? Apenas prantos e lamúrias como bens sabe, se cumpres com tua promessa de não me esquecer. Agora vejo por entre as lápides teu corpo a vagar lentamente. Tuas vestes sedosas apetecem minha lascívia, por serem translúcidas como te tornas-te. Sabes que nunca deixaria de desejá-la por um ínfimo momento. Teus cachos negros caindo-te na fronte ainda despertam meus sorrisos, que aos leigos soa como insanidade. Mas por ti, minha bela dama da noite, não me importaria em passar uma eternidade num cárcere, junto a outros que conhecem o resplendor de tua beleza.
O sopro gélido que trazes contigo é tão triste e desprovido de vida, diferente da brisa morna e tenra que carregavas, mas ainda assim devo dizer-te que continuo a te amar. Amo-te por agora saber que nossa existência não se resume ao meu estado, mas transcende como minha imaginação até o teu plano, seja onírico, seja lúgubre. Anseio pelo dia da chegada de minha hora para enfim unir-me a ti e tê-la em meus braços novamente. Porém, apenas uma imprecisão temerosa toma meu semblante, fico a divagar sozinho sobre poder talvez perder-te enquanto a encontro.
Temo agora apenas por não saber se teu amor a mim pertence, como sabes, que o meu a ti é verdadeiro. Receio e estremeço, tua imagem se torna pálida, sem vida e expressão, ao mesmo tempo em que brilhas incandescentemente, trazendo-me de volta a lucidez de querer viver mais um dia, apenas para poder contemplar-te em outros crepúsculos. Assim me encontro com o coração partido, não por ter sido ofendido, mas por estar dividido entre minhas duas Luas.
Um comentário:
É realemente bom voltar a ler coisas daqui.
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