Não me recordo direito desse conto, tanto que vou postar ele aqui para lê-lo convosco. Não tenho muito a falar dele a não ser que me recordo de tê-lo escrito, mas não do que ele trata. Com vocês um conto completamente estranho a minha memória, mas familiar ao meu âmago.
A Alguém
Deveras é estranho ponderar sobre o momento em que nossas vidas acaba. Não devemos pressupor que este instante que trato seja realmente o momento de nossa morte, mas sim o momento em que descobrimos que já não vivemos mais. Muito antes de chegarmos ao instante o qual cessamos de respirar nós já estamos mortos. Muito antes de o pulso parar já não vivemos mais. Eu refiro-me ao instante o qual nos perdemos o ânimo de continuarmos com sonhos e ambições, eu menciono aqui através dessas palavras pelo instante que a centelha do continuar existir se extingue e o dia seguinte nada mais é que um mero numero que não ansiamos à chegar.
No caso deste, que vos escreve, esse instante chegou prematuramente, talvez antes mesmo de ter consciência do que a morte significava, em seu aspecto real. Eu ainda tinha cerca de doze anos quando o desânimo pelo amanhã se apoderou de mim e eu cogitei em cessar com essa miserável vida que não se cansava de rastejar pesarosamente. Antes mesmo de completar quatorze já procurava por meios, estapafúrdios, de não ter que ver a próxima alvorada. Na época, ainda infantil, prendia-me à reação do que diriam se me encontrassem jazido sem vida no meu quarto e o sofrimento daqueles que tinham meu apreço não era algo que eu almejava, sendo assim desistia sempre.
Depois dessa idade conturbada, consegui perceber que temos um grande dom de camuflar a nos mesmos e viver sob uma fachada de alegria ilusória. Conseguimos fingir um sorriso franco, uma tristeza momentânea e até mesmo uma paixão inexistente. Somos hábeis mentirosos por natureza e até mesmo temos a incrível capacidade de nos convencermos de nossas próprias mentiras. Se fosse diferente, por que em nossas lembranças eventualmente nos vemos como se alguém estivesse a nos filmar e não com uma visão de nos mesmos? Vivemos em uma completa ignorância a qual nos convencemos de que vale a pena viver o amanhã, graças a nossa imaginação de um passado fictício.
Como qualquer outra pessoa normal, acreditei em minhas próprias mentiras e entreguei-me a ilusão de um onirismo quase perfeito. Entretanto o desapontamento com a realidade era tamanho que notei-me apático com o passar dos dias. E assim tomei consciência do que havia vivido, uma grande mentira. Antes mesmo dos vinte anos já não conseguia ver graça nas coisas que fazia, entretanto ainda prendia-me ao fato de que se não notassem não perguntariam sobre e continuava a simular minhas reações, não por ignorância, mas propositalmente, o que me dava uma pequena vantagem no trato social. Era capaz de aparentar estar sentido o mesmo que aqueles que mascaravam seus sentimentos a mim. Entretanto à medida que a apatia avança sobre nos nem mesmo mentir parece ser algo necessário.
Transformei-me em algo o qual as pessoas observavam distantes e comentavam acuadas. Eu já não via mais a necessidade da sociedade em si, preferia perder-me em pensamentos sobre a mediocridade dos demais e sobre suas mentiras banais. Tornei-me hábil em perceber as nuances das mentiras que contavam e de conhecer os segredos mais bem guardados de cada um.
Foi então que algo aconteceu. Conheci uma pessoa à qual parecia ser inversamente proporcional a mim. Estranhamente ela parecia sentir realmente tudo que a cercava. Parecia esta constantemente embriagada em sensações e além de tudo não conseguia descobrir o que havia por trás dela. Ela não possuía uma fachada como todos os outros e se eu estivesse errado naquele momento certamente a farsa dela era forte o bastante para me convencer que era real. Notei-me ser envolvido por aquela figura misteriosa, talvez por não conseguir perpetrar naquela sólida mentira, talvez por acreditar que fosse realidade.
Realmente a figura que ela aparentava à mim era extremamente encantadora, tinha um sorriso franco, aparentemente livre de recriminações. Era detentora de uma meiguice raramente vista. Tinha uma forma especial de demonstrar o que sentia e o que pensava. Não usava mascaras como as pessoas normais, embora essas a taxassem de mentirosa e simulada. Eu observava isso abismado. A única pessoa a qual eu não encontrava mentiras era considerada uma mentirosa nata. Era tida por uma falsária barata e tratada como uma pária entre os rejeitados.
Mas o que seriam as ilusões além de devaneios da alma? E o que poderia ser considerado um ato de paixão melhor que estes próprios momentos de insensatez? Mesmo ficando apático aos sentidos e sentimentos, posso afirmar com plena certeza, que de uma paixão ninguém está a salvo. Tal sentimento desenfreado deveria constar nos imponentes atlas de medicina como um vírus, uma enfermidade que se alastra, nada pode detê-la ela simplesmente se estende de forma inconseqüente causando danos irreversíveis por onde passa. Não consideraremos, porém que ela seja vil e egoísta, ela apenas nutre um instinto próprio de sobrevivência, como qualquer outra coisa que exista, ela quer continuar existindo.
Para encerrar meus rodeios sobre a situação, pondero ser melhor apenas admitir que apaixonei-me por alguém que eu poderia considerar a mentira mais verdadeira avistada. Era como um paradoxo ocorrendo em frente aos meus olhos tendo eu mesmo como um ator. Entreguei-me aos deleites do sentimento novamente, procurava constantemente o belo mesmo onde habitava apenas o hediondo. Sentia-me estúpido por acreditar novamente me tais mentiras, mas elas soavam como a mais primorosa realidade, algo tão perfeito impossível de ser.
Considero que perdi a prática nos artifícios dos sentidos, pois não consegui sequer ouvir um não, recebi a pior de todas as duvidas, o silêncio. A falava, tocava e sentia e em troca recebia apenas um grande vazio. Em noites mal dormidas, revirava-me em meu leito, pensando onde estava a minha falha e julgava-me estúpido por sucumbir novamente às mentiras convenientes. Não conseguia descansar por um ínfimo instante. Quando dormia a via em meus sonhos, quando acordado em meus pensamentos. Não tinha um único instante de paz e privacidade, ela sempre estava comigo. Velava-me em meu sono como se vela um morto e seguia-me como um corvo esperando para que eu tombasse sem vida para consumir o que restava de mim. Comparava-me como um Werther qualquer, sem a poesia de sua vida, apenas seus percalços. Se por ventura Dante tivesse me conhecido ele me ofereceria de bom grado todos os infernos mostrados a Virgílio, para que eu pudesse descansar, a tortura eterna soava muito menos pungente que a aniquilação constante.
Ponderava, para não dizer que delirava. A tinha em meus mais secretos pensamentos constantemente. Sua imagem não saia dos meus olhos, de meus lábios eram as suas palavras que eram proferidas. Em meus gestos os seus maneirismos em minha agonia a sua serenidade. Já indagava-me sobre tal beleza realmente existir, ou se tratava apenas de uma peça pregada pela minha imaginação. Um último mecanismo para reviver o que habitava dentro dos homens, uma tentativa desesperada de minha alma para devolver-me o caráter humano.
Não, ela realmente existia. Nenhuma mente poderia fantasiar tal resplendor, mesmo nos sonhos mais puros, os anjos mais belos, teriam aspecto deformado na presença dela. Consumia-me constantemente em indagações sobre o que fazer e como proceder para lidar com tais sentimentos que inundavam-me. E enquanto consumia-me em perguntas o mundo continuava a seguir seu inefável curso. As coisas mudavam ao meu redor e eu não sabia mais onde exatamente eu estava. O mundo dera inúmeras voltas enquanto eu estava esquecido dentro de mim mesmo. Seria até mesmo estranho comparar à maneira a qual eu vivia com a minha atual rotina. Isolado, absorto apenas em minhas conjecturações. Alienado ao mundo.
A mudança que me cercava era completamente surreal. Quando necessitei retornar ao mundo por mero instinto de sobrevivência, descobri que nada mais havia. Nenhuma bela musa existiu, os verdes olhos que eram a minha paixão nunca se abriram, o sorriso que me encantava nunca existira. Insano agora percorria ruelas imundas repletas dos mais vis homens tentando encontrar um lugar o qual eu pudesse ser aceito como igual. A beleza cativante nunca habitara mundo algum a não ser o de minha imaginação. Assim prossegui até me encontrar onde estou hoje, morto porem com o sangue ainda correndo, em um quarto a muito esquecido, repleto da mais densa poeira escrevendo em linhas parcas aquilo que um dia foi a minha única e grande paixão.
Um comentário:
Sem agrados, oque há aqui deveria ser editado e publicado.
Postar um comentário