quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Uma pequena prévia...

Conforme eu havia prometido a muito tempo, deixo aqui os dois primeiros capítulos do meu conto/fábula/romance. Espero que gostem, sugestões são sempre bem vindas. O nome ainda não foi definido embora hajam algumas possibilidades. Acho que seria isso, até o próximo post.

Capitulo I – O Vilarejo

Arthur olhava o sol se pôr no horizonte. Via os típicos telhados, holandeses ou alemães ele não sabia ao certo, mas definitivamente eram típicos, toldos altos e angulares com telhas baixas e escuras. Ao longe, escondendo aos poucos o pôr-do-sol, havia uma fileira de árvores que circundava todo o vilarejo e essas árvores eram como as delimitações do pequeno lugar repleto de ruas íngremes e casas de dois pisos empilhadas. As ruelas eram revestidas por uma pedra branca irregular com musgo crescendo dentre os paralelepípedos. Muitas pessoas alegóricas vagavam pelas calçadas em harmonia, era em suma um vilarejo comum e feliz, onde todos sabiam os nomes uns dos outros e conviviam pacificamente. Não havia brigas ou desentendimentos. Cada qual cuidava de seus próprios afazeres sem invadir o espaço alheio ou competir com os demais, excetuando-se por uma vez...
Houve uma ocasião, a muitos anos, quando mais de uma família decidiu trabalhar com ferraduras para animais, o senhor Witschevitz, antigo ferreiro, reclamava constantemente com o prefeito sobre esse disparate com seus negócios, enquanto o senhor Blougmberg defendia-se dizendo que não havia ferraduras o bastante, além de considerar os preços que seu rival cobrava ultrajantes, pois daria para fazer três ferraduras com o valor de uma. Em sua defesa o primogênito ferreiro dizia que de nada adiantava fazer três ferraduras se elas duravam três vezes menos, como as que seu adversário produzia. Como forma de amenizar a cólera dos artífices e manter a habitual consonância do vilarejo fez-se um estudo. Constatou-se que uma pequena parcela das ferraduras era destinada aos vilarejos vizinhos e então uma comissão decretou que o senhor Blougmberg trabalharia com o senhor Witschevitz na produção de aparatos eqüinos, onde o senhor Blougmberg produziria as ferraduras de acordo com seus critérios e dois seriam os modelos a serem apresentados para o público e os lucros divididos igualitariamente.
Apesar do repúdio e do tripúdio de ambos os artesões, esse decreto resolveu o problema. Depois de alguns meses trabalhando em conjunto descobriram novas formas de forjar as ditas ferraduras, com uma qualidade quase tão boa quanto as do senhor Witschevitz e com valores quase tão acessíveis quanto as do senhor Blougmberg.
Deixando de lado essa pequena rusga que abalou a paz de Münchenliftstein nada mais aconteceu. Cada qual prosseguia com seus ofícios pacificamente. Toda manhã o senhor Gohnt deixava duas garrafas de leite na porta de cada um, assim como a senhora Willimen entregava um pão grande e redondo, recém assado, para cada morador. Durante a noite todos se dirigiam para uma taverna, situada entre a igreja e uma pequena loja de especiarias, para ouvir os bardos contarem histórias sobre o mundo além das árvores. Todos se amontoavam dentro do pequeno estabelecimento para escutarem maravilhados canções sobre Deuses, princesas, cavaleiros, bestas míticas, reis, rainhas e dragões inescrupulosos que atormentavam vilarejos. Ao final das histórias cada qual voltava para suas moradas satisfeito, uns por terem ouvido falar da beleza das princesas, outros por almejarem em um dia se tornarem grandes cavaleiros, empunhando sagradas espadas, na luta em prol do bem e de justiça enquanto alguns simplesmente se contentavam por não ter de enfrentar dragões que cuspiam fogo pelas narinas transformando em cinzas tudo que atingissem.
Toda sexta-feira à noite, logo após o poente, reuniam-se num grande salão para festejar a conclusão dos afazeres da semana. Como regra, cada qual se apresentava e recebia seu quinhão, o qual era dado pela primeira dama a senhora Münchestow, que ainda cultivava suas famosas tulipas. Claro que para tal formosura de suas flores ela contava com ajuda de Brogowtz, o responsável pelo paisagismo da cidade. Dizia a lenda que Brogowtz, munido com a sua tesoura de poda e fardado com seu avental de jardinagem, poderia fazer a escultura que desejasse no arbustos que quisesse. Ah sim, os arbustos, como não falar deles...
No centro da cidade, em frente à Igreja, à loja de especiarias e à taverna, havia uma praça. As calçadas eram feitas com pequenas pedras cinza e brancas, circundadas por muitos canteiros de tulipas (todas mudas das premiadas flores da senhora Münchestow) e árvores. A praça tinha formato redondo e as passarelas levavam os transeuntes de um lado para o outro. No centro havia um chafariz que despejava fresca água cristalina e comumente era usada para saciar a sede de algum habitante. Ao redor da fonte, inúmeras esculturas de arbustos ornavam o onírico lugar. Unicórnios, fadas, heróis e princesas erguiam-se altivamente para guardar o lugarejo dos males exteriores. Aos domingos era de praxe que os pacatos moradores se reunissem ali para terem conversas agradáveis e desfrutar da companhia uns dos outros. Todos trajavam-se muitíssimo bem para tal evento graças ao senhor Sadjek, que apesar da avançada idade ainda tinha grande talento e precisão para os mais precisos cortes e costuras. O evento na praça não era algo definido para os moradores, mas sim um acaso que se tornou regra. Essa confraternização teve seu início quando algumas pessoas adiantaram-se em ir à igreja e ficaram a conversar até que as grandes portas, de carvalho escuro, da paróquia se abriram e então, com o passar do tempo, mais e mais habitantes passaram a aderir a essa prática.
Quando o pesado sino de ferro badalava, todos já conversados dirigiam-se ao templo para ouvirem os ensinamentos. O cura enxergava com bons olhos esses encontros prévios, pois no momento da solenidade já haviam se esgotados os assuntos impertinentes à ocasião e não havia nenhum murmurinho paralelo aos ensinamentos. A igreja, como instituição, não era diretamente vinculada a nenhuma doutrina específica, mas sim a todas ao mesmo tempo. Não se pregava como verdade absoluta nenhum profeta, mas sim usava-se tudo que havia de bom e positivo de todos. Se um dizia que precisávamos ser bons com o próximo assim o cura o dizia, se outro doutrinava que era preciso fazer coisas boas para que coisas boas acontecessem, ele assim também o ensinava. Não havia nenhum tipo de reverência ou idolatria a um único deus específico. Não havia nenhum gesto que demarcasse o fiel em questão como um cordeiro do rebanho, mas todos ali compreendiam que tudo havia por vontade de algo maior e esse algo maior dera a todos braços, pernas, olhos ouvidos e inteligência para que cada qual seguisse seu próprio caminho através de seus esforços. Os únicos milagres que todos viam era o milagre das estações, o milagre do belo pôr-do-sol por trás das colinas distantes, o milagre da colheita e do cultivo, o milagre do amor e do nascimento.
A economia da cidade era definida de forma rígida, todos receberiam a mesma quantia, sem exceção. Um jovem rapaz conhecido por Tom, diminutivo carinhoso de Tomas, era o responsável de percorrer estabelecimento por estabelecimento recolhendo os lucros semanais e os registrando com pedrinhas coloridas, que eram colocadas dentro de um frasco. Cada estabelecimento tinha um frasco de cor distinta, roxo, vermelho, verde, amarelo... Toda quinta-feira essas pedrinhas eram removidas e colocadas numa urna muito maior da mesma cor do frasco. No final da colheita uma comissão era eleita para contar as pedrinhas de cada urna e quem mais arrecadasse era homenageado por toda a cidade e tinha a honra de organizar o festival da colheita do ano seguinte. Ninguém podia ser eleito o “mais promissor negociante” consecutivamente. Aquele que coordenava os festejos excluía-se da competição. Não apenas o lucro era considerado, mas sim o escoamento de seus produtos. Este era o papel do senhor Zürch, o prefeito da cidade, controlar quanto seria enviado para cada pessoa para que toda a demanda fosse atendida. Este, munido com uma pena, fazia cálculos complexos sobre quanto em material fora entregue para cada qual e quanto retornara para distribuir para a população. O dinheiro era apenas uma forma de possibilidade. Aquele que desejasse se privar de alguma coisa para comprar algo novo, assim o faria, todos tinham o poder e o direito de comprar tudo que necessitassem para uma vida sadia e para se divertirem nos dias de folga.
O cargo de prefeito do vilarejo era escolhido de acordo com a instrução. Aqueles que terminavam os ensinos da senhora Bocheinstein poderiam concorrer para tal responsabilidade. É um fato que toda a população acima dos vinte anos detinha da instrução necessária para poder fazê-lo, mas para ser definitivamente eleito este teria que realizar uma sabatina de questões muito rígida, escrita e verbal, dissertativa e objetiva. Nessa prova constavam todas as questões que um bom administrador deveria saber. Havia cálculos de adição e subtração (os segundos eram menos importantes, mas ainda assim necessários para períodos de estiagem), multiplicação e principalmente de divisão. Havia também perguntas de todos os gêneros envolvendo todos os setenta e quatro moradores da cidade sobre seus afazeres e predileções, afinal um regente tinha por obrigação conhecer aqueles a quem serviria por dois anos. O período bienal fora optado, pois nem todo ano a colheita era satisfatória e nem todo ano caravanas mercantes chegavam à cidade. Dois anos era o período ideal. Se a seca ou a chuva destruísse as plantações em um ano, o outro certamente seria melhor. Se as caravanas de mercantes interessados em especiarias ou nas famosas ferraduras dos senhores Blougmberg e Witschevitz tardassem em um ano, no outro certamente as finanças estariam equilibradas novamente.
Todos os moradores que não desejavam ter algum papel vinculado diretamente com o comércio podiam trabalhar no campo. Grandes extensões de oliveiras, milharais, trigais e tamareiras circundavam a cidade até a divisa com as imponentes árvores que cercavam o vilarejo. Havia também inúmeras colméias, das quais o experiente senhor Hozerth retirava o mais doce mel já provado. A terra era fértil e tudo que era plantado nascia com grande vigor e formosura. Havia também alguns poucos pomares dispersos, mas estes eram estritamente para uso dos residentes da pitoresca vila, a variedade era imensa para prover frutos para todos durante todos os meses.
Nesses campos, próximo a um colossal salgueiro, o senhor Abraham cultivava meticulosamente suas pequenas ervas. Ele não apenas as cultivava, mas também passava longos períodos conversando com as plantas para que elas se sentissem amadas. Abraham vivia em um chalé nas extremidades da cidade próximo aos estábulos do senhor Müstenhein, que cuidava dos animais. Não havia um rebanho grande, mas as poucas vacas existentes supriam a cidade com leite e ainda restavam alguns litros para a venda. De suas ovelhas era extraído o pêlo para produção de roupas e cobertas para o rigoroso inverno.
Quando as folhas cor de cobre caíam gentilmente das árvores os habitantes já se preparavam para a invernia. O sábio Gogorth começava a reunir ungüentos para combater frieiras e todos os tipos de enfermidades causadas pelo frio, para isso comprava algumas ervas do senhor Abraham e as demais que necessitava e não as tinha à disposição no mercado, eram cultivadas por ele próprio numa sala hermeticamente construída para tal fim. Em outro recinto as moía e delas fazia ungüentos e pós revigorantes que acalmavam as indisposições da carne nos períodos onde a neve se estendia pela ravina. Embora em muitos lugares o inverno fosse tido como uma época triste e pesarosa, no vilarejo de Münchenliftstein não havia tal sentimento. Ali era motivo para canções e festa. Para evitar a escassez de alimentos grandes estoques eram mantidos para estes períodos. Alguns animais eram previamente escolhidos para engordar e se transformarem em nutritivos ensopados que misturados com legumes resultavam em saborosos banquetes que fartavam a todos. Nessas épocas onde sair às ruas era um perigo, os Münchenliftsteinenses reuniam-se no salão de festas da cidade.
Vários concursos eram realizados dentre eles música, poesia, imitação, dança e histórias variadas, mas normalmente aproveitava-se do inverno para contar apólogos de terror sobre lendas que perambulavam as cercanias da vila atrás da grande muralha de árvores. O principal mito aproveitado era o de uma velha bruxa muito feia, que perscrutava os arredores da cidade em busca de camponeses incautos para fazer poções mágicas com seus sangues, vestes com suas peles e remover o que restasse para dar como alimento a um pequeno homúnculo que era parte sapo, parte cobra com tentáculos em vez de braços. Ainda havia divergências sobre qual era a parte de cima e a parte de baixo do instigante diabrete. Todos conheciam a lenda da Bruxa Kettner, ninguém sabia o porquê desse nome, mas todos a temiam o bastante para não indagar a respeito.
Costumava contar a senhora Wizeing, falecida no verão passado, que num dia em que colhia alguns frutos dos pomares a leste da cidade, teria ouvido alguns ruídos estranhos vindos de uma moita de pequenos frutos redondos e avermelhados com sabor adocicado. Quando olhou na direção, para sua surpresa, lá estava uma figura pálida cheia de rugas na fronte, com dentes tortos e amarelados sorrindo diabolicamente. Todo o vilarejo ouviu o grito desafinado e angustiado da pobre mulher. Quando os primeiros e intrépidos heróis chegaram para salvar a pobre senhora, encontraram-na desmaiada em meio às tâmaras. Não havia nada mais no local, apenas a senhora Wizeing, Abraham, Hozerth e as tâmaras esmagadas. Doravante, tenho a obrigação de fazer justiça com o ocorrido e ressaltar que esta não foi de forma alguma a causa da morte da senhora Wizeing; esta faleceu quase dois anos depois, sentada em sua cadeira de balanço enquanto tricotava. Ainda recordo-me do momento em que o atarracado Mogh encontrou-a fria e imóvel. Segundo a atenta senhorita Wottom ouviu falar, ela morreu devido à idade avançada. Façamos justiça nesse ponto com a bruxa, afinal ela podia ser feia, enrugada, com dentes amarelados, sorriso diabólico e dona de um homúnculo meio sapo, meio serpente, com braços de tentáculos, mas ela até o presente momento não fez nada além de assustar o povoado. Claro que todos sabiam que ela arrancava a pele de suas vítimas e tudo mais, mas nos últimos setenta e oito anos, atestados pelo antigo e sábio Wischmidtz, nenhum morador fora importunado diretamente por tal vil criatura.
Voltemos a falar dos encantos da pequena vila de Münchenliftstein. Além da praça, seguindo ao sul, subindo a grande rua da ladeira, assim chamada devido à sua inclinação aguda, existe uma área completamente desprovida de casas ou árvores, este é o lugar dedicado para feiras itinerantes que surgem de tempos em tempos. Saltimbancos ali fazem suas apresentações, mercadores armam suas tendas e mágicos apresentam seus truques. A cada estação surge algum evento vindo de outras terras que permanece por algumas semanas.
Seguindo ao norte da praça dos chafarizes, encontrará a estrada de saída do vilarejo. É uma área encantadora, perfeita para piqueniques no verão, repleta de flores multicoloridas e variadas que se estendem até a ponte feita de troncos de árvores que atravessa o Rio das Águas Calmas. Verdade seja dita, o Rio das Águas Calmas não chega a ser um rio com toda a sua imponência e magnitude. Talvez o termo Córrego das Águas Calmas fosse mais apropriado. Independente de nomenclatura, ali águas límpidas e rasas deslizam gentilmente. Durante o verão sempre podem ser encontras algumas crianças banhando-se alegremente. Além do rio e da ponte existem os altos pinheiros que demarcam o final das terras e para este além, completamente desconhecido e fascinante, Arthur mirava fascinado.


Capítulo II – Arthur Aberwitz

Arthur ainda era jovem quando percebeu, por si próprio, que havia algo que o deslocava das demais crianças da vila. Enquanto todos se contentavam em correr pela ravina brincando de pega-pega, ele detinha maior interesse em observar o Rio das Águas Calmas atentamente e imaginar para onde ele seguia. Deitava-se na macia e verde grama e ficava a apreciar o céu azul-claro imaginando o que havia acima das nuvens. Quando em meio das outras crianças era perfeitamente normal, corria, ria, brincava e realmente se divertia com tudo isso, mas sempre que conseguia se safar da atenção inquiridora dos münchenliftsteinenses, imaginava histórias além das fronteiras da cidade. Ficava devaneando sobre gigantes que podiam habitar a cordilheira que mal se via ao longe e conjeturava como seria a voz de uma criatura de tal proporção. Ria-se sozinho por longos períodos ao pensar que, apesar dos muitos metros de estatura, os gigantes pudessem ter a voz fina e aguda. Quando não eram as cordilheiras distantes e o Rio das Águas Calmas que atraiam sua imaginação, eram as pedras e os pequenos buracos criados pelas formigas no solo.
Observava atentamente os pequenos orifícios e ficava a divagar sobre imensos túneis abaixo da terra que poderiam levá-lo para qualquer lugar do outro lado do mundo, com a metade do tempo. Imaginava reinos subterrâneos com castelos e esquisitos habitantes. Via perfeitamente uma governante desse mundo inferior, detentora uma beleza exótica e pele cinza aperolada, trajando um vestido verde-musgo e preto, ornada com todas as pedras preciosas que se poderia encontrar abaixo do solo.
Por certa vez até mesmo começou a empenhar-se em encontrar respostas para as suas perguntas. Num dia estava cavando a terra na tentativa de “coincidentemente” deparar-se com um dos túneis, noutro estava a construir um barco para velejar pelas calmas águas da sua imaginação. Ambas as tentativas foram fracassadas, pois depois de cavar por algum tempo, percebeu que nunca conseguiria chegar tão fundo quanto precisava e seu pequeno barco mal flutuou tempo o bastante para ser batizado. A embarcação seria chamada de Viajante Intrépido, certamente seria o nome que melhor se adequaria, pois levaria Arthur para terras distantes e desconhecidas, sem receio, sem fraquejo.
Quem muito ria das tentativas de Arthur era o senhor Bündsdef, que normalmente cedia restos de madeira da sua carpintaria para que o garoto pudesse criar os seus engenhos. Outra pessoa que muito colaborava com suas investidas, era o sábio Gogorth, que o disponibilizava algumas ervas e explicava como usá-las para enfrentar gnomos e trolls, além protegê-lo em suas pesquisas pelo desconhecido. Claro que as pequenas pedrinhas que também ganhava para atirar ao chão e ouvir um estalido alto tornavam suas pesquisas muitíssimo mais divertidas.
Por vezes descobria algumas coisas importantes por si próprio, como por exemplo no dia em que estava sentado à fonte da praça olhando para os arbustos e sentiu um calor ardente. Quando procurou o que causava tal acontecimento viu o sol refletido nos grandes vitrais da igreja e voltando em sua direção. Isso bastou para que ele pedisse um dos frascos do sábio para um experimento, que batizou de “Concentração Calórica Rebatida”, na tentativa de gerar calor com o vidro. Infelizmente esse teste fracassou também, não conseguira refletir tanta luz quanto o necessário para sequer queimar uma folha seca.
Todavia, não eram as aventuras ou perigos que poderia encontrar fora da aldeia que o atraia, mas sim as histórias que poderia contar. Sempre esgueirava até a taverna, sem ninguém saber, para ouvir abaixado, próximo à janela, as narrativas dos viajantes e constantemente se perguntava quanto daquilo era verdade. Teria mesmo um cavaleiro rendido um exército por apenas bradar seu grito de fúria e girar a espada sobre a cabeça, ou algo mais teria acontecido? Acima de tudo, teria isso acontecido mesmo? E os dragões vis e inescrupulosos, por que desejavam tanto as riquezas dos vilarejos para guardar em seus covis se eles não tinham onde gastar? Ou será que os dragões tinham seu comércio próprio e sua cidade organizada com dragões e “dragoas” passeando com seu pequenos dragõezinhos? Realmente nenhum dos bardos havia falado sobre esses importantes detalhes e ele não o poderia perguntar por que essas histórias eram apenas para os adultos, segundo o diziam e se alguém o descobrisse certamente teria que novamente ajudar o senhor Brogowtz a podar arbustos por muitos dias para aprender a não ser enxerido.
Em um velho jornal, ganho de seu avô, anotava todos seus pensamento e indagações a respeito do mundo que o cercava, mas não via. Algumas vezes anotava até mesmo metas futuras, cronologicamente ordenadas, para nunca ficar confuso quando os momentos que tanto sonhava chegassem. Havia apenas três itens que considerava como diretrizes fundamentais para considerar sua vida realmente vivida. Reunir conhecimento para sua investida, realizar um feito grande para que erguessem uma estátua em nome de sua glória e, no término de tudo isso, escrever um livro para que todos pudessem usufruir do conhecimento que adquiriria em sua jornada. E naquele dia ele sentia que já possuía o conhecimento necessário para dar o primeiro passo e a coragem para atravessar a ponte. Com sua sacola marrom, carregada de objetos que pudessem ser úteis, presa às costas deu início à sua marcha. Com passos temerosos e resolutos percorreu toda a extensão da rua da ladeira observando o que imaginava ser possivelmente a última vez, via as casas com paredes de pedras, janelas amplas e floreiras. Indagou-se se sentiria saudade das saborosas tortas de morango da senhora Leinks ou senão das altas gargalhadas do senhor Schultz.
Ele podia voltar atrás se quisesse, tudo que tinha que fazer era subir novamente a ladeira e voltar são e salvo para o seu quarto, para o conforto de sua família. Pensava no choque que seria quando sua mãe encontrasse a carta a qual contava que havia decidido sair mundo a fora para deparar-se frente a frente com todas as lendas que ouvira por tantos anos. Não que Arthur fosse ainda uma criança, ele já havia quase completado quinze ciclos de estações e em sua aldeia era tido como um homem, sonhador, mas um homem. Já com as malas prontas e os pés na estrada não podia recuar. Havia feito o mais difícil, dar o primeiro passo agora só precisaria seguir em frente.
Passou pela praça e abasteceu dois cantis de couro de bode que trazia presos junto ao cinto, contemplou as imensas esculturas do senhor Brogowtz e prometeu a si mesmo encontrar a verdade por trás de cada uma delas. No caminho para a ponte colheu alguns frutos dos pomares e os guardou juntamente com seus demais pertences na mochila, afinal não sabia quando conseguiria comida novamente e as poucas moedas que carregava consigo não durariam para sempre. Ao chegar ao meio da ponte olhou para a vila, confiante que retornaria com muitas histórias e com um sorriso de satisfação despediu-se.

4 comentários:

Unknown disse...

Quando comecei a ler lembrei de Marilda Iamamotto... descritivo hein?!!! Huahua, mas ficou bom... Agora, bem que você poderia me contar o final, né?
Conforme vc disee... é para um público infanto-juvenil, mas quem sabe vire um Harry Potter II? rsrsrs
Ficou bom! O mais interessante foi as pedrinhas coloridas... :)

Unknown disse...

e a Svi??????????????? ^^
quero ler! quero ler! quero ler! quero ler! quero ler! quero ler!quero ler! quero ler! qdo ela apareceeeeeeeeee???
hehehehehehe
adorei o in�cio, mas to curiosa pelo restanteeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!!!!!!!!!
beijOO!!!

Unknown disse...

fiquei com preguiça de ler, sorry...
mas até aqui eu li tudo, se é q vc não apagou nada...
bjusss

Ana Júlia disse...

Ah pois é...Jornalista do séc. XXI prefere ler em papéis...Mas adorei o início...Não poderiam ser telhados irlandeses? (Houve telhados assim na Irlanda? Pois, se não existiram lá, por mim existiriam...heheheh). Enfim, espero ler em papel, em mãos...E aí conversaremos longamente acerca disso e de tudo mais...Tomando um café, obviamente!
Abração!!!!!!!!!!!!