quinta-feira, 29 de março de 2007

Que Descanse em Paz



Hoje Jr. "nos deixou". A alguns dias ele contraiu um vírus e se encontrava debilitado, sem metade de sua capacidade. Ontem todavia, por infortúnio do destino, ele caiu e sofreu vários ferimentos graves. Mesmo devido aos seus esforços para continuar vivo, as 23:00 horas ele sucumbiu aos traumatismos e desfaleceu. Ao amanhecer de hoje, fui verificar se as sequelas da queda haviam desaparecido, mas minhas esperanças foram em vão. Ele mal conseguia "abrir os olhos". No momento ele encontra-se aos cuidados do "Dr. Leonardo Kornowski" na tentativa de revivê-lo. Todavia ja fui informado que dificilmente ele sobreviverá a este trágico acontecimento. Deixo aqui o meu pesar por tal lúgubre destino e o meu aviso de que os posts no blog se tornarão mais raros e infelizaes. Em memória à Jr., 2005 - 2007.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Entre as 5:00 e 05:15 AM

Bom dia a todos! Nada como começar o dia alegre e vivo! Se alguém souber como se faz diga-me...Escolhi esse conto por que temos um leitor novo (Agora somos SEIS) e acredito que ele servirá como "Boas Vindas". Sem muitas mais palavras, com vocês, “Causa Mortis”...


“Causa Mortis”

Deitada, imóvel sobre a lápide de metal. Nenhuma reação, a fisionomia rígida os olho cerrados. Lábios levemente abertos, nenhum suspiro. Os braços alongados e delicados estendidos rente ao corpo. Sua única veste um grosseiro lençol azul que não faz jus a sua beleza. A linha da cintura definida, as pernas sensuais estagnadas. Nenhum movimento, nenhum sussurro.

A causa da morte seria uma overdose, embora fosse necessária uma autopsia, me via incapaz de macular o seu corpo. Não ousava nem mesmo fitá-la diretamente na face, não por medo que ela me visse, mas por estar atemorizado diante de tamanha beleza. Uma overdose. Talvez ela não merecesse este fim dedicado apenas à incautos entregues ao vício, não, certamente ela merecia mais, muito mais.

Mas o que haveria de ser? Suicídio? Não, seguramente não. Com um diagnóstico desses outros iriam esquartejá-la, retalhar cada centímetro do seu corpo na espera de descobrir qual fora o veneno usado. Ela precisava ser preservada. Tamanho encanto não poderia ser entregue nas mãos de um açougueiro vulgar.

Mas o que? Eletrocussão? Não, não havia marcas. Falência respiratória? Como saber sem violar o corpo? Via-me num dilema, precisava preservá-la a todo custo, evitar as mãos de outros no corpo que me despertava tamanho desejo. Ainda podia ver sob a pele as veias azuladas deslizando como rios que corriam pelo corpo. O que haveria de ser?

Folhei dezenas de livros antigos em busca de alguma forma para matá-la sem deixar marcas. Não, não, não e não. Nada servia. A frustração acabou por me vencer e eu caí derrotado ao seu lado. Andei ao redor da mesa, ainda sem tocá-la. Apenas movendo a cabeça acompanhando a delineação do corpo. Sem marcas, sem sinais.

Ponderei, fiquei distante tentando imaginar o que poderia trazer a morte a alguém sem deixar marcas físicas. Algo que fosse aceitável ao ser humano, mas que de forma alguma pudesse ser explicado segundo as leis da ciência. Num sobressalto apanhei a certidão de óbito e dei por completa a perícia. “Causa Mortis” tristeza.

terça-feira, 27 de março de 2007

Uma Imagem das Palavras


Não é nenhum segredo que o sonho de todo mundo que escreve é publicar um livro. Então não sendo diferente comigo, já imaginei até mesmo uma possível capa. O nome o qual eu pensei é esse mesmo “Divagações de uma Mente Ociosa” Juntei vários elementos dos meus contos nessa capa, tem imagens que remetem às histórias em questão, para saber o que é vinculado com o que, somente lendo... Aguardo por comentários (mesmo que sejam cinco, ainda assim são cinco que eu considero).

Não tem título.

Imaginado ou real, qual a diferença se o importante é o estrago que causa? E o que dizer quando um não diz nunca e o nunca parece ser para sempre? Não há. É melhor permanecer não usando palavras e ficando apenas na ausência de som. Não ter coragem muitas vezes é uma dádiva e não um problema e então após tantos nãos, da vida e do texto, reais e imaginários, deixo a vós curto e rimado “Não”.

Não.

O não é uma palavra dura,
Mesmo dito em meio à ternura,
Quebrando o silêncio que cura,
Minha insalubre e vil penúria.

Assim meu lamento procura
Tua aconchegante candura,
Que insiste em negar que perdura
Aquilo que diz ser loucura.

Resta a mim apenas a injúria,
Desta voraz sombra obscura,
Que soa como eterna tortura,
Por minha insensata bravura.

Revelei-te o amor qual procura,
Ao enleio da dor que enclausura
A minha paixão que perdura,
Ao “não” que ouvi sem brandura.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Sem notas precisas, apenas divagações e o texto...

Agora vocês, 5 leitores (sim aumentou em um o número), se perguntam: "Mas ele não disse que estava feliz e que não conseguia escrever?" Falaram bem, estava. Aí está´a minha primeira produção inédita (fiz essa manhã por que perdi o sono ontem a noite e fiquei até agora acordado. (grato por quem me aturou a noite toda)) a todos os leitores do Blog, sem distinções.

Outro Filme, a Mesma História.

Sentado, em frente à televisão assistia a um filme antigo. Na tela cenas em preto e branco delineavam uma paixão complexa e intangível, como a de tantos outros. Não havia falas, apenas textos colocados indicando o que cada ator dizia. Uma música ligeira tocada ao piano era a única sonoplastia da produção. Podia-se perceber cada quadro da imagem, o que dava a impressão dos atores estarem movendo-se mais rápido que o normal. O elenco não era o melhor já escalado em Hollywood. Nenhum dos artistas presentes havia feito fama em toda a carreira. Ele gesticulava bruscamente, com um ar forçado de súplica no rosto e a legenda apresentava um discurso inflamado sobre ele não poder deixá-la partir sem maiores explicações. Ela por sua vez contorcia o rosto demonstrando uma aflição falsa e pueril. A mesma cena de outros filmes. Já dava para saber o que aconteceria, ambos se separariam. Após isso o mundo confabularia para que eles se reencontrassem. Era sempre assim. Não havia o descaso, a eterna historia se repetia. Contos de fadas. Tudo transcorria da forma mais impossível até que terminaria bem no final. O mocinho e a mocinha.

Certamente o final desta epopéia de onirismos seria selado com um beijo. Era de praxe. Não tinha por que ser diferente. As pessoas pagavam por coisas utópicas. Por sentidos abstratos e alheios ao mundo real. Esses filmes nada mais eram que meras cópias de fábulas arcaicas. Até mesmo a atriz era um plágio das demais. Loura, usando um chapéu com cachos do cabelo a mostra. Ele por sua vez tinha o rosto quadrado, com o queixo largo e um sorriso branco irritante. Ele trajava um terno que parecia ser cinza e ela um tailleur em tons pastéis. O cenário de fundo tinha muitas flores que eram tomadas um tom acinzentado variando do claro ao escuro. Sabia que eu estava certo. Ela partiu. Deixou-o para “todo o sempre”. O filme transcorre, ele sofre, ela chora. Cada qual em seu lugar. Distantes. Sem noticias, sem contato.

O filme se estende por horas como nos demais, todo o sofrimento, toda a loucura embotada num ser apaixonado. A tentativa desesperada de esquecer... Deveras era um filme diferente. A tentativa de esquecer deu certo. Cada qual continuou a sua vida, na melhor forma que puderam. Ele evitou relacionamentos, ela conheceu alguém que despertou o seu interesse. Então o dia estava marcado. Eu sabia. Essa história não ficaria sem um final feliz, estamos falando de ficção e não realidade, não haveria uma razão para não terminar tudo bem. Ela certamente o convidara para o casamento na esperança dele impedir a cerimônia com algum gesto de amor desesperado. Assim todos estavam lá. Era uma catedral bela com grandes paredes brancas. Centenas de convidados dispersos entre bancos. O noive esperava paciente dentro da igreja. Então um carro preto chegou frente à igreja. De dentro dele saiu a noiva, linda e resplandecente, a música do filme mudava para dar verossimilhança, com o que era tocado num órgão antigo por uma velha de mãos enrugadas.

A música transcorreu as legendas mostraram todas as palavras do casamento. O momento o qual eu antecipara não aconteceu. Ninguém revelou algo que pudesse impedir a aliança do casal. Notava-se claramente no rosto do mocinho certa dor e a respiração diferenciada, mas por covardia ele nada falou e contentou-se apenas em baixar os olhos ao chão para não culpar-se de seu destino. Assim os noivos casaram, ambos aceitaram. Ele beijou a noiva. A festa começou, mas o mocinho da história teve que se retirar prematuramente da festa. Antes de ele sair um rapaz entregou-lhe um envelope fechado com uma fita vermelha em torno. Certamente seria um plano para que eles pudessem fugir, talvez um recado da noiva, eu não sabia mais o que pensar.

Já distante da festa ele carregava duas malas para dentro de seu quarto num navio que partia aquela noite. Após despojar-se das valises andou até o convés e retirou o envelope do bolso. Com imenso zelo removeu a fita vermelha que o lacrava e abriu-o. De dentro retirou uma foto com o casal no instante do beijo. Ela estava inclinada para frente com um sorriso de felicidade e ele tateava o rosto da noiva com uma mão, enquanto a outra a envolvia pela cintura, seus lábios se tocavam apaixonados. Ali via ele o momento em que suas forças desapareceram. Não restava mais nada a fazer alem de aguardar que o navio se distanciasse o bastante para que a memória que o incomodava ficasse tão distante que não o ferisse mais. O homem se recostou no parapeito do navio e ficou a observa o sol que se punha no no céu vanilla. Um imenso “The End” cobriu a tela e as letras começaram a passar. Realmente fora um filme bastante diferente dos demais. Este poderia ser outro filme qualquer, mas a mesmice da historia não era a mesmice do cinema, mas sim a minha própria. Retirando o glamour e os enfeites da produção, alterando os atores, removendo navios e cenários na Europa não restaria mais nada, além de eu, sentado num sofá, observando um velho retrato com uma mão em torno da cintura.

domingo, 25 de março de 2007

Um Post a Esmo...

Bom primeiramente eu gostaria de me desculpar com meu fiéis leitores (todos os três ou quatro) por eu não ter postado nada ultimamente. Conforme disse um amigo meu: “Quem é triste escreve e quem é feliz vive.” Acho que a frase anterior resume o meu “status-quo” estranhamente eu ando muito contente com tudo, mesmo procurando, ou acreditando ter, muito motivos para me lamentar. Todavia não pensem que minha pretensiosa carreira literária chegou ao fim. Certamente nada poderia estar mais distante da verdade. Tenho pensado ultimamente em escrever um Elogio à Escrita, seguindo a mesma linha de Erasmo de Rotterdam ao escrever Elogio à Loucura (Ou se preferirem, Elogio da Loucura, conforme algumas versões em português). Para que eu possa retornar aos antigos moldes de contos e poesias eu preciso de algum baque novamente, algo que me faça sentir algum tipo de pesar e eu não pretendo tê-lo tão brevemente. Não vejo necessidade nem tenho a urgência de criar o ambiente para escrever. Antigamente eu colocava algumas músicas escolhidas a dedo que abriam algumas feridas mal cicatrizadas e tudo se resolvia, mas não agora, acho que não seria pedir demais querer usufruir um pouco desse êxtase. Algumas pessoas diriam “Wouldn’t it be Nice” ler algo novo de minha autoria? Eu respondo: Talvez. Mas deixem-me aproveitar um pouco mais desse "statu quo ante bellum" que quando minha guerra pessoal surgir novamente, eu certamente produzirei muitas linhas mais. Vou postar a seguir um texto (de minha autoria, como os demais) que eu gostei do resultado final. É um texto antigo eu ja o escrevi a um bom tempo e eu nao tenho a menor idéia do por que postar ele hoje, mas mesmo assim irei fazê-lo. Com vocês, O Gotejar.

PS. Para marcar parágrafo eu deixei uma linha, já que o espaçameno do Word não é adicionado ao colar para postar no blog.

O Gotejar

Deitado numa cama, em meio as cobertas bagunçadas ele se encontrava. Com os olhos perdidos na infinidade do teto, pensava sobre os anos que haviam transcorrido. O único som que rompia o silêncio era um intermitente gotejar. Os braços cruzados atrás da cabeça, revelavam a tranqüilidade que o rapaz se encontrava. Numa expressão serena e um sorriso no canto da boca, fitava um pequeno inseto a andar meticulosamente de um lado ao outro. Num cinzeiro, um cigarro queimava a um certo tempo, acumulando uma cinza rarefeita que se desmanchava aos poucos.

O quarto tomado pela escuridão, não parecia preocupar-lhe. Os monstros de antigamente, que habitavam seus sonhos, já haviam sidos desfeitos, desaparecidos como a fumaça do cigarro, que se dissipava lentamente na penumbra. Ficou ali em silêncio, apenas a imaginar. Pensava em tudo que havia conquistado e perdido. A única coisa que o forçava retornar a realidade, era o maldito e ininterrupto gotejar. Cada pingo parecia explodir aos seus ouvidos, mas ele ainda assim estava relaxado demais, para pensar em fazê-lo parar.

Ele sempre fora um rapaz atraente. Poderia ter todas as mulheres que quisesse, mas nunca desejava nenhuma. Não que não gostasse de mulheres, mas apenas não suportava a idéia de perder a sua liberdade e viver em prol de alguém. Namoradas? Sim claro, ele tivera algumas. Havia recém saído de um relacionamento, o qual gostava de definir como conturbado e não queria saber de mais nada no momento. Pretendia apenas aproveitar cada instante de sua liberdade. O certo é que ele nunca amou. Nunca conseguiu sentir-se preso a alguém de uma forma subserviente. Sempre conseguia tornar o alvo de suas paixões, um mero fantoche que gostava de brincar, e quando se cansava, simplesmente retirava completamente da sua vida.

Assim havia sido o seu último relacionamento. Dizia as mais belas palavras, apenas para obter o que queria. Jogava com suas emoções. Fingia ciúme, amor, ódio e tristeza. Sempre fora hábil em mentir. Era um ator por natureza. Sempre tivera o dom de convencer as pessoas, de tudo que quisesse. Mas nunca parecia ser o bastante... Não conseguia compreender por que todas elas precisavam de tanto. Nunca se satisfaziam com o que ele as oferecia. Elas sempre acabavam por pedir mais e mais.

Se ele simulasse amizade, elas queriam paixão, se fosse paixão pediam amor, se fosse amor seria escravidão, condição a qual, o causava imensa repulsa. Ah se cada um pudesse levar a sua própria vida. Viver apenas para si mesmo e não pelos outros, certamente haveria bem menos complicações a serem resolvidas. Talvez tivesse até mesmo resolvido esse maldito gotejar.

Assim lentamente, cada gota caía. Uma a uma, e a cada ruído que elas causavam, vinha a tona mais uma memória. Ciúmes. Essa era a que revestia suas lembranças. Não ciúmes que ele tivesse sentido, ele realmente não possuía tal sentimento, mas os ciúmes que a ele era oferecido, que o atormentava. Ah se elas soubessem. Ele nunca havia se importado, existir ou não outras, não fazia a menor diferença. Sejam mais ou menos belas, ainda assim ele conseguia enxergar nos olhos de cada uma, muito além.

Conseguia penetrar nos sentimentos, medos, angústias de cada uma, com meras palavras. E assim ele as escolhia. Visualizava a qual seria mais facilmente enganada. Preferia as ingênuas, pois estas dariam menos trabalho e seriam mais facilmente descartadas. A ingenuidade o atraia como mariposas à luz. Gostava de sentir o gosto de magoar alguém que pudesse ser tão puro. Ele realmente acreditava que assim talvez conseguisse ensinar algo. Que ninguém é bom. Somos todos apenas meras e rubras máscaras, aguardando pelo badalar da meia noite, para cumprirmos com nosso papel.

E hoje, ele pusera a máscara de forma esplêndida. Nunca havia pensado que conseguiria chegar tão baixo quanto hoje. Valeu-se de dores e marcas profundas, daquela que a amava, para causar mais estrago. No fim acabaram por fazer um acordo e nesse acordo, constava apenas que eles nunca mais se encontrariam. Claro que a estúpida garota pensava diferente. Ela tinha a plena certeza que voltaria a vê-lo, mas esta nunca fora a intenção do jovem. E agora ele estava ali, e ela distante como nunca. Mal chegava aos pensamentos dele, se não fosse o maldito gotejar.

Novamente mais uma gota se esfacelou ao chão e outra memória trouxe consigo. Essa já não era tão desagradável como foram as demais. Ele até ponderava que pudesse ter sido aprazível, alguns poucos momentos que viveram juntos. Mas ainda assim não eram bons o bastante, para lhe causarem qualquer tipo de remorso. Ele recordava-se da jovialidade dela.

Ah sim, nesses momentos ela deixava transparecer a inocência de uma forma encantadora. O modo de olhar, sem nenhuma intenção, que demonstrava tão abertamente felicidade. O sorriso largo, que parecia pedir por compaixão. Os cabelos esvoaçantes refletindo o dourado de um belo dia de sol. A grama verde a se espalhar pelo parque, num infinito de memórias aprazíveis, que agora avassalavam as lembranças dele.

“Ah esse maldito gotejar! Por que não cessas?” – pensou o rapaz. Mas não. Continuava impiedoso, marcando o tempo o qual terminara com ela. Cada gota trazia mais e mais memórias à sua mente. Não conseguia suportar mais tamanha passividade e obrigou-se a levantar. Caminhava agora de um lado ao outro, sem conseguir parar de relembrar e relembrar. Cada momento, cada instante. Não mais podendo suportar o maldito ruído, que insistia em explodir em sua cabeça uma torrente de lembranças, andou até o banheiro. Abriu bem a torneira e encheu as mãos de água. Jogou contra o rosto, deixando a sensação do frio, cortar-lhe as recordações. Repetiu a ação algumas vezes. E na última apertou as mãos contra a face.

O que eu fiz... Apenas isso pensava agora. Nenhum gotejar se ouvia, apenas o som da água que jorrava pela torneira provocava um leve ruído. Descobrira tarde demais, que havia se desfeito da única pessoa que talvez tivesse amado em toda vida. Percebeu que começava a sentir realmente e não simular fazê-lo. Notou que aprendera a amar. Incrédulo do que havia feito, andou novamente até o quarto e observou a cama. Ali estava o seu lugar, as cobertas bagunçadas e os travesseiros brancos empilhados um acima do outro.

Ao seu lado, estava apenas o resto do que fora a sua paixão. Ali jazia uma jovem com os pulsos que gotejaram sangue. As gotas agora eram mais raras e suaves, não tão irritantes quanto foram outrora, mas certamente mais dolorosas. Já não havia mais força o bastante para expelir o sangue como antes. Restava apenas a passividade da morte e não o fulgor do morrer. Assim ele a viu. Caída, sem vida. Crente que iria encontrá-lo em algum lugar. Crente que ele faria o mesmo, conforme haviam combinado. Ela morrera por ele, mas ele agora sofreria por ela.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Se não for com carinho não dá...

Bom, falhei um dia... Não é sempre que encontra-se o ânimo ou a inspiração necessária para a escrita. Talvez seja por ser um trabalho solitário, talvez seja pelas revisões que um texto deve passar, mas ainda assim é algo imensamente exaustivo. Quem acredita que trabalho braçal seja mais extenuante que o trabalho mental engana-se redondamente. Aquele que trabalha carregando caixas, pesos, fazendo esforço ao término de sua jornada pode livrar-se das suas obrigações e fazer o que bem entender. Já aquele que trabalha pensando nunca está livre de seu encargo. Este que trabalha usando a inteligência ou se preferirem a criatividade encontra-se vinculado segundo após segundo ao seu propósito. Estou errado ou mentindo? Então responda-me com sinceridade se no dia que antevêem a uma prova crucial um nervosismo/cansaço mental não toma conta daquele que está se preparando. Quem dentre os que escrevem nunca acordou no meio da madrugada com inspiração para fazer um texto e depois de uma ou duas horas encontra-se ainda trancado no primeiro parágrafo e após essa tentativa frustrante perde o sono completamente devido à indignação ao ocorrido? Eu mesmo cheguei a passar um mês, dia após dia pensando numa única historia a ser improvisada e com a necessidade de ser contada por 3 ou 4 horas por improviso encontrei-me falando de forma errada, escrevendo pior ainda sem falar na minha aparência abatida... Eu só não digo que invejo o trabalho braçal por um único motivo, não troco a minha inteligência por nada, mesmo esta não sendo nem de longe a mais brilhante dentre todas. E como desculpas pela minha falha em postar novidades em meu blog deixo um poema antigo também mas que assemelha-se com a minha situação atual.

O Que Eu Hei De Escrever...

O que eu hei de escrever,
Se as palavras me fogem ao pensamento
E as rimas não me surgem pelo intento?
O que eu hei de escrever?

O que eu hei de escrever,
Se para fazê-lo é preciso sentir,
De alegria chorar ou de tristeza sorrir,
O que eu hei de escrever?

O que eu hei de escrever,
Se me conforto como me encontro agora,
Se em minha alma não mais a mágoa brota
O que eu hei de escrever?

O que eu hei de escrever,
Se o sentimento se encontra seco,
Se em meu sorriso não há mais alento
E em minhas lagrimas não se encontra sequer solidão?

O que eu hei de escrever?

segunda-feira, 19 de março de 2007

Nada como um relax as vezes...

Bom todos precisamos descansar eventualmente, encontrar algo divertido para fazer, sem "stress" nem complicações. Com as palavras não seria diferente, a seguir um "relax" literário, sem intentos de erudição ou transmissão de idéias que eu fiz ao tentar pensar em um conto que uma amiga minha havia pedido.

A Devo Um Conto

A devo um conto,
Aumento um ponto...
Escrevo a linha,
Talvez sem rima.

A devo um conto;
Aumento um ponto?
Seria mistério?
O que escreveria...

A devo um conto,
Cade o ponto?!
Talvez a virgula,
Melhor se insira.

A devo um conto,
Virgula ou ponto?
Não vai ter rimas!
Apenas linhas.

Ah! Devo um conto
De nome pronto
Uma histórinha...
De morte ou vida?

A devo um ponto,
Ou seria um conto?
Me perco ainda
Vai crase ou vírgula?

Ah sim, devo um conto...
Somente um
O que escrever?
Que nome ter?

Hum... Devo O conto
Algo com estrondo!
De rubras lágrimas,
Ou de um homem morto?

Ah... Eu devo o conto.
Ainda não tá pronto...
Só faltaria,
Escrever as linhas!

Sim devo o conto,
Eu sei, um conto.
O que contaria,
Em minhas linhas

Que devo um conto,
Com muitos pontos.
Sem muita rima.
Bah! Fiz poesia.

domingo, 18 de março de 2007

É melhor deixar elas descansarem...

Jasmim

Jaz em mim teu belo rosto,
Em minha boca somente o gosto.
Do amargo de tuas pétalas,
O afável toque amoroso.

Jaz em mim tuas límpidas lagrimas,
As quais eu nunca esquecerei,
Cristalinas como o orvalho,
Em verdes pétalas que eu amei.

Jaz em mim o calor de teu beijo,
O fulgor de tua alma.
Jaz em mim um momento de desejo,
E o que nunca aconteceu.

Jaz em mim a tua lembrança,
E o odor que se extinguiu.
Jaz em mim a nobreza,
Da mais bela flor de Jasmim.

Algumas coisas jazem, quem somos nós para desenterrá-las?

sábado, 17 de março de 2007

É difícil dizer...

É estranho que sempre que pretendemos dizer algo às pessoas encontramos algum tipo de obstáculo. Às vezes não falamos por receio de ofendê-las, às vezes simplesmente por "não encontrarmos" tempo, mas o certo é que não o fazemos. Quanto mais verdadeiro e escondido for o que pretendemos falar mais difícil se torna. Alguém aqui já parou para analisar o quão difícil é falar para alguém que ama esta pessoa ou senão que a odeia? Nós não o fazemos, falamos apenas aquilo que nos é corriqueiro. Se não gostamos de alguém falamos entre os cochichos com algum confidente, se gostamos demais não falamos por medo da reação da mesma. Enfim não falamos o que queremos, mas ainda assim temos o total direito de escrever.

Se Dissesse Que a Amo...

Se eu dissesse que a amo,
Que conseqüências haveria?
Seria visto como fato,
Ou como mera fantasia?

Se eu dissesse que te amo,
O que teu peito me diria?
Responderia com fervor
Ou somente esnobaria?

Mas se eu te dissesse que a amo,
Com pureza desmedida,
E a dissesse pelos meus versos
Que minha mente em ti habita?

E se dissesse que a amo,
E que queria que fosse minha
E partilhasse dos momentos
Os quais sonho noite e dia?

Já não nego que a amo,
E que em ti penso nessas rimas,
Que não descanso em devaneios
Tua ausência me fulmina.

Então dizendo que a amo,
Me amaria com a medida
Tão intensa quanto a amo
Desmazelando a sabedoria?

Se enfim dissesse que a amo...

sexta-feira, 16 de março de 2007

Tentativa de desculpas para uma certa besta.

Hoje quase que eu não consigo postar algo aqui, mas ainda assim deixo uma tentativa de me redimir com alguém. Algumas vezes a gente faz bobagens, outras vezes nos tornamos a própria bobagem. Espero que este post sirva para resolver uma pequena falha que houve em uma conversação e para deixar claro que eu sinto saudade de uma determinada pessoa que brigou comigo ontem.

Saudade

Saudade ferrenha que em meu peito vigora,
Entristece minha alma, que por ausência chora,
Num silêncio pungente que aferroa por hora,
Na mudez desmedida do pesar que sufoca,

Inquieto com o tempo, que tarda a contar as horas,
Reviro-me ao avesso, nem amigos confortam,
Tua tenaz ausência que a mim apavora
Por ter apenas o vazio onde estavas outrora.

Em tua beleza singela minha alegria transborda,
E enfrentar tal momento, qual você não vigora,
Acalenta meu peito, que por ti conta as horas
E enaltece o que sinto quando percebo sua volta.

Nesta saudade ferrenha que em meu peito vigora...

quinta-feira, 15 de março de 2007

Tem dias que eu só preciso chutar o balde. Pulem esse post e vão para o próximo.

Sim eu sei que este post está de atravessado aqui no blog. Para hoje eu havia pensado em postar uma única coisa que será o texto referente aos 70 anos da morte de Lovecraft, mas assim como a vida as idéias mudam. Para os que desejam saber o que aconteceu que me fez mudar de idéia sobre os posts segue em anexo um resumo.
Eu acordo as duas e alguma coisa da tarde olho pro meu computador que havia ficado renderizando uma planta baixa decorada 3D (uma maquete eletrônica 3D) e descubro que deu pane naquela porcaria. Levanto, olho, um erro que sinalizava a impossibilidade de salvar o que eu havia feito. Ótimo... Perfeito para começar o dia, o trabalho de uma madrugada inteira parado, por algum erro que eu não tenho a menor idéia de onde veio. Bom, nem tudo estava perdido eu só precisaria esperar mais algumas horas pra ele ficar pronto, releva-se. Então eu pego o celular e vejo que tem uma ligação da Kátia nele. (Para todos aqueles que não sabem, a Kátia é a minha ex-namorada.) Aparecia no visor do meu celular o telefone do tio dela, sim seria estranho receber uma ligação do tio dela o fato é que ela está na casa dele. Retornei a ligação para saber o que ela queria e adivinhem... Ela disse que não havia me ligado... Estranho... Mas tudo bem. Quando ela decidiu terminar o namoro e pediu para voltar comigo (sim isso realmente aconteceu e foi em menos de meia hora) eu disse não. Pensa no que você fez e falou e depois nós conversamos. Eu ao menos acho sensato isso, voltar só pra não ficar sem não vale a pena.
Então eu falei: Kátia, nos havíamos combinado em conversar dentro de um mês, o prazo está chegando ao fim e eu quero saber se você quer conversar?”
Ela: “Não acho que tudo que nos tínhamos para dizer nós já dissemos, nós nos damos melhor como amigos.”
Putaquepariu! Isso realmente me deixou muito possesso, muito mesmo. Nos não terminamos por telefone, é claro que não. Mas até a uma semana atrás ela deixava scraps dizendo estava com de saudade e PQP pra que? Não seria muito mais fácil ter dito por scrap mesmo “Não volta André, to melhor sem você?” Pra que uma ligação no meu celular pra que eu retorne e ouça isso? Não to irritado por ela não querer voltar, até por eu não querer também, mas eu cansei em ser o cara legal e educado que tentava resolver as coisas frente a frente, de forma tranqüila e cuidadosa pra evitar estragos. Se eu soubesse que faltaria a coragem a ela de fazê-lo, certamente eu teria dito por telefone mesmo a muito tempo atrás “chega!”. Bom, isso me fez parar pra pensar em quanto somos tentativas frustradas conforme os dizeres que abrem o meu blog... Eu sempre tentei ser um cara correto, e legal, principalmente com ela, gostando ou não, mas vejo que aparentemente falhei. Não sou digno sequer de uma explanação frente a frente. Seria isso culpa minha ou covardia dela? Depois dos últimos dias eu acredito piamente que seja culpa minha. Não passo de uma tentativa frustrada de ser o cara que vocês conhecem. Meus princípios e ideais tenho vontade de defenestrá-los pela janela e viver uma vida baseada na estupidez e ignorância. Recentemente descobri ser uma falha imensa em muitos outros sentidos. Como namorado devo ter falhado conforme já foi apresentado anteriormente. Como escritor, fracassei de uma forma a qual apenas eu compreendo. Como amigo me considero omisso. Tudo que eu acreditava ser certo me parece errado e tudo que eu acredito ser errado parece ser certo. Pra que ler se a ignorância prevalece? Pra que ser gentil se com a falta de educação é mais eficiente? Pra que cuidar se ninguém mais o faz? Eu realmente não entendo o que acontece. Se alguém puder me explicar por favor o faça. É um pedido encarecido que faço como uma tentativa, que provavelmente será frustrada também, de manter-me no eixo o qual considero correto. Se alguém leu isso eu peço desculpas por tal desabafo, mas uma vez li num jornal que o blog é o novo trenzinho elétrico do ego. Bom, este é o MEU trenzinho e brinco com ele como eu quiser.

Cthulhu Ftaghn! Ph'nglui mglw'nafh Chtulhu R'lyeh wgah-nagl ftaghn!

Hoje faz 70 anos desde a morte de Lovecraft e certamente não poderia deixar passar batida essa chance/possibilidade de falar sobre tão brilhante escritor. Lovecraft enquanto vivo não publicou muitos trabalhos e muito menos conquistou renome pelas suas obras. Encontrou durante toda a sua carreira como escritor, inúmeras dificuldades tanto relacionadas à sua saúde quanto à credibilidade de sua obra. Certamente era o que poderia ser definido por Kafka como “Um Artista da Fome”. Não escrevia unicamente pelo dinheiro ou qualquer forma de notoriedade na sociedade, mas sim, por crença em seus altos ideais literários. Lovecraft sempre se julgou um escritor medíocre. Outra ressalva que acredito ser importante mencionar é o fato de Lovecraft ter criado um grupo de escritores o qual acabou por receber a alcunha de Círculo Lovecraft, que tinha como finalidade escrever sobre o mito de Cthulhu e seu panteão. Aqueles que têm conversado comigo nos últimos dois anos sabem, que esta idéia do círculo de escritores que Lovecraft criou, acabou por levar-me a criar o Circ. HDK, o qual eu tenho um imenso prazer em fazer parte. Quem sabe dentro de algumas décadas um dentre todos os que fazem parte deste círculo revele ser detentor de uma qualidade literária tão impecável e profunda quanto Lovecraft? Talvez a Cinthia com sua habilidade descritiva, ou talvez a Amanda com sua capacidade de aprofundar-se ao tratar de sentimentos e por que não o Matias com suas histórias "ambíguas" e psicológicas? Quem poderá dizer? Certamente Lovecraft não sabia o ícone que viria a se tornar, mas certamente a obra deixada por ele influenciou e influenciará várias gerações assim como me influenciou a ponto de eu ter criado algo amplamente inspirado nas histórias desse mestre na arte de escrever contos. Com vocês minha parca homenagem a este colossal escritor que mesmo tardiamente recebeu o reconhecimento merecido. Para maiores informações sobre este grande escritor recomendo o artigo sobre ele na Wikipédia.



"That is not dead which can eternal lie, and with strange aeons even death may die."

H.P. Lovecraft


Nas Profundezas.

Recordo-me ainda, com imenso pavor, de um fato que vivi, em uma noite onde deparei-me com aquilo que nos ronda constantemente. O sol já havia jazido no poente e a cortina do incerto se fechara no horizonte. Os raios álgidos e pálidos da lua tocavam as águas da baía, convocando adormecidos habitantes a virem a tona, para celebrar o seu mórbido espetáculo natural. Naquela funesta e sombria noite, me encontrava defronte para aquelas estranhas águas, parado acima de um rochedo alcantilado, tomado por fungos que espalhavam-se com segmentos de temíveis tentáculos, ocultos pelas profundezas dos oceanos.
Vislumbrei o horizonte, o qual a chama já era extinta, e entreguei-me a contemplar os confins do infinito, através das cintilantes estrelas dispersas no firmamento. Nesse distante horizonte, onde o tempo não alcança, indaguei com imprudência e ouvi respostas inconcebíveis. E então, a brisa eterna, detentora dos segredos, suspirou-me em melodias o que não nos é sabido. Aturdido em devaneios, ponderei sobre as respostas ouvidas em tal momento. A brisa ainda soava, naquela linguagem já esquecida e confidenciou sem qualquer receio o quanto somos ínfimos. Revelou-me na cantoria, sobre os altos cumes e confins profundos, sobre o ar, a terra e até mesmo o espaço onde ancestrais deuses habitam em estado onírico.
Vi com horror os antigos deuses e mesmo perdido na imaginação, senti o imenso poder que carregam desde os primórdios da criação. Tornei então à realidade e percebi que permanecia impávido sobre o rochedo do farol antigo, que alumiava com dourado facho profundas águas. A maré segredava um macabro réquiem sem que eu percebesse o perigo oculto e ao bater das águas gélidas nas pedras disformes notei seu luto. O Negrume que se espalhava pela encosta assemelhava-se em coloração como óleo derramado, entretanto não possuía a mesma viscosidade.
Temeroso pelo que minha imaginação dizia-me haver nas profundas águas do oceano, tornei meus olhos acima do firmamento. Em meio a tantos pontos luminosos, encontrei rostos disformes que nos observavam dia após dia, durante toda a nossa existência. O que ganhariam eles com nossas ínfimas vidas, indaguei-me. Talvez fossemos nós a chave para que eles retornassem a reinar em absoluto pelo eterno. Essa sensação, de existir apenas devido ao desejo de algo maior, me fez recuar alguns passos para mais próximo à luz. Duas estrelas brilharam em uma miríade de cores sobre minha cabeça e então estremeci. Teria sido eu descoberto? Teria feito algo que desagradara os eternos? Recuei mais alguns passos e percebi distante no horizonte que uma formação rochosa parecia ganhar altura.
Meu rosto alterou-se num espasmo indescritível e o horror que me adentrara naquele instante, fez-me tentar me afastar o mais rapidamente possível. Mesmo fugindo apavorado daquilo que imaginara ter vislumbrado, fora vencido pela curiosidade e tornei a olhar aquilo que eu acreditara ter se erguido distante. Onde eu acreditava ser um conjunto de colossais rochas afundadas sob as águas tratava-se na realidade de uma pequena parte a armadura natural, que contornava o ombro de tamanha criatura. Não satisfeito pelo meu primeiro erro, observei ao alto uma imensa fronte imutável que despertara de seu sono ancestral. Após essa visão hedionda perdi os sentidos e a noção temporal.
Acordei apenas no dia seguinte com o sol queimando o meu rosto. Algumas pessoas me observavam curiosas. Tornei a olhar para as rochas que moveram-se a noite anterior e lá estavam elas, imóveis, imutáveis e inexoráveis. Estáticas, como eu sempre havia encontrado nos dias anteriores à noite que havia passado. Mas sabia eu que não havia sido um sonho ou uma alucinação. Algo retornara ao seu sono profundo. E ao notar-me tão próximo daquela ameaça, que poderia tornar a se reerguer, corri com todas as minhas forças para o mais longe possível do mar. Todavia, nem minhas pernas nem o mais veloz veículo poderia me levar a algum lugar longe das garras daquilo que eu contemplara com horror na noite anterior. Cada noite subseqüente eu fui tomado por visões e mais visões daquilo que nos espreita nas profundezas de nossas mentes...

quarta-feira, 14 de março de 2007

Em épocas modernas o que resta além de adequar-se?

Real Ficção

Imagino, deliro,
Crio algo intangível.
Não toco nem ouço,
Sem cheiro ou gosto.

Apenas vejo, leio.
Observo a grafia,
Palavras modernistas.
Um sorriso a muito gosto.

Ah, menina de belo rosto,
Teus lábios quero, a mui gosto.
E tocar lhe a rubra face
Com o afável toque amoroso.

Delicio-me na fantasia,
De fazer-se real um dia,
E trazer o que meu sonho cria
Para a solidez dessa ilusão.

A tua beleza desmedida, minha mais real ficção...


Acho que o poema fala por si próprio. Doravante, acredito ser necessário ressaltar um trecho de um poema de Fernando Pessoa sob o heterônimo Cancioneiro:

"Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração... "

Trecho de Isto - Cancioneiro (Fernando Pessoa)

Embora devo concordar que deve haver algo do autor na obra, isso deve permanecer em sigilo, até que um dia eu perca o resto dos parafusos que mantém a minha cabeça no lugar e explique meus poemas com maiores detalhes...

terça-feira, 13 de março de 2007

Um ótimo momento para falar do que há dentro.

Olvidado

Felicidade insólita que rebenta em meu peito,
Da triste agonia deflora o riso.
Num doce gemido escapa um suspiro,
Quem me dera ter sido feliz assim outrora.

De vosso silêncio eu tenho medo,
Mas em vossas palavras sinto o martírio.
Me nega, se esconde, ignora que sinto,
Mas tal privação me alegra agora.

Sorrio do escárnio que agora sinto,
De minha angústia surgir por hora.
Angústia de estar liberto e vivo,
Não em sua prisão, mas de estar cá fora.

Liberto e rindo de um coração partido,
O qual minha lágrima de tristezas chora.
Insalubre regozijo de uma paixão perdida,
O qual o abandono celebro agora.


Um certo amigo meu citou que das complexidades ele não é . Nem mesmo eu, então o que melhor que a simplicidade de um poema para deixar trespassar aquilo tudo que sufoca dia a dia? É deveras estranho ponderar sobre o quanto algumas coisas são de tão pequena significância que podem ser jogadas fora de uma forma tão simples e banal. Esse poema (de minha autoria) me é vislumbrado como um lapso precógnito do que aconteceu nos últimos tempos. O escrevi a quase um ano, mas somente a um mês e pouco fui realmente entender do que ele trata, de apatia, descaso, desdém e sentir-se feliz por tudo isso.