Capítulo III – A Velha Cigana
A noite já havia caído sobre o reino e a lua iluminava o céu escuro. Os passos de Arthur deixavam marcas na fofa terra da estrada e aos poucos as grandes árvores que circundavam o vilarejo se aproximavam. Esta seria a primeira vez que ele saía das delimitações de Münchenliftstein e não conseguia negar ou esconder que estava um tanto assustado com isso. Talvez dragões o esperassem do lado de fora da aldeia para fazê-lo seu banquete, ou mesmo gnomos lá estavam para lhe enganar e roubar todos os seus pertences. Mas assim como poderia haver perigos poderia haver também princesas indefesas esperando por um herói corajoso. Esse pensamento revigorou suas forças e avançou com passadas duras em meio às árvores.
Ao deparar-se com o lado externo da fronteira sentiu-se um tanto frustrado. Esperava por uma noite negra, repleta de nuvens densas e escuras, o solo cinzento e rachado, cercado por centenas de pequenos olhos vermelhos brilhantes que desapareciam eventualmente, mas ou invés disso encontrou a mesma ravina, as mesmas pedrinhas amarelas no chão e a mesma noite iluminada. Todavia isso não tirou as suas expectativas por aventuras, certamente precisaria se afastar um pouco do povoado para que as coisas emocionantes que havia sonhado começassem a acontecer.
Como todo bom viajante ele precisaria de um bastão para auxiliar em sua jornada. Poucas pessoas realmente sabiam o quanto útil era um bordão a um viajante. Ele poderia auxiliar em momentos onde a locomoção fosse dificultosa, poderia ser usado para ver se um rio era fundo demais para atravessar andando, para procurar por armadilhas a frente e também como arma caso alguém tentasse lhe assaltar ou fazer mal. Assim, apanhou um pedaço de madeira do chão que serviria para tal propósito e agora equipado de seu cajado, com sua mochila presa às costas e seus cantis devidamente cheios sentiu-se como um verdadeiro explorador, como um viajante nato.
A estrada seguiu em “S” e após subir uma pequena colina levou-o a leste, em direção aos imensos paredões de pedra. À medida que andava recordava-se das histórias de harpias, criaturas meio humanas meio aves dotadas de garras e presas afiadas, que voavam dos altos cumes rochosos para a estrada para capturar suas refeições. Segurou o bastão fortemente com ambas as mãos e preparou-se para reagir a qualquer ataque vindo do céu.
A lua já havia subido bastante no firmamento quando Arthur avistou ao longe uma carroça repleta de objetos e uma fogueira, talvez ali pudesse se dar início a sua jornada. À medida que se aproximava enxergava melhor os itens que estavam sobre a carroça. Jaulas, tapetes enrolados, gaiolas, pequenas prateleiras com vários frascos com líquidos de várias cores. Um gato preto, que estava deitado sobre um dos tapetes, ergueu a cabeça ao notar a presença do jovem. Não havia ninguém mais no local, nem mesmo ao redor da fogueira, sequer havia um único cavalo para puxar a carroça.
- Olá. – gritou Arthur em busca de alguém. Sua voz ecoou numa gruta que estava um pouco mais a frente. Ninguém respondeu.
-Tem alguém aí? – insistiu obtendo como resposta apenas o ecoar de sua voz.
Certamente não havia ninguém, pensou o garoto. A carroça estava com muitas tábuas quebradas, sem uma roda e tomada por cupins. As gaiolas encontravam-se um tanto enferrujadas e a prateleira com os frascos balançava ao ritmo do vento. Estranhou apenas a fogueira ainda acesa e perguntou-se a respeito de quem esteve ali e onde teria ido. Talvez as lendas sobre as harpias fossem verídicas e o viajante que ali estivera tivesse se tornado jantar dessas criaturas.
Arthur cutucou o fogo com o bastão para ver as fagulhas se espalharem no ar e andou em círculos por algum tempo até que não conteve sua curiosidade e foi ver de perto os itens da carroça. Subiu cuidadosamente para evitar que a madeira se desmanchasse sob seus pés. Tateou os tapetes um tanto deteriorados pelo tempo e olhou para as gaiolas vazias. Num canto havia um caldeirão de ferro não muito grande. Pelo chão havia vários objetos espalhados, como tochas, um espelho de cobre polido, varetas, jarros de cerâmica e bolsas grandes e pequenas com folhas e ervas. Em alguns dos potes tinha um líquido esbranquiçado com alguma coisa em deterioração dentro.
Quando já se encontrava calmo e observava aos objetos tranquilamente, foi surpreendido por um golpe nas costas e por um esbravejar numa língua incompreensível. Arthur caiu no chão da carroça, mais pelo susto que pela pancada recebida, a qual não chegou a feri-lo. Ao olhar para seu misterioso agressor deparou-se com uma velha de dentes tortos e amarelados que usava (e ainda deve usar) um lenço branco e vermelho na cabeça, com um olho branco vazado e um normal. Ela batia com uma vassoura no jovem enquanto gritava coisas no idioma completamente estranho.
-Mas donde já se viu um rapaz tão novo e garboso roubando uma pobre velha! – disse ela com uma voz peculiar, como se tentasse economizar o ar, compactar ao máximo as palavras e prolongar os “Es”.
-Não, não! Eu não tentei roubar a senhora, eu estava procurando por alguém e... – falou Arthur até ser interrompido.
-Sim, eu sei! Eu te disse. – replicou a velha rapidamente.
-Como? – indagou Arthur sem entender.
-Sim, sim, você não ia me roubar, eu te disse isso. – disse ela movendo a cabeça como se tentasse enxergar o jovem com o olho vazado.
-Então por que você me bateu?
-Quem te bateu? Di... Di... Diz pra Madame...
-Ahn... Éééé... – Após esse balbuciar Arthur perdeu completamente a certeza do que havia acontecido.
- Não é seguro um rapaz tão franzino viajar assim sozinho, a essa hora, assim de noite.
-É, é isso que eu estava tentando explicar. Eu estou viajando.
-Eu sei, eu sei... Você está indo para uma viagem muito importante. – mencionou a velha com uma imensa certeza enquanto forçava ainda mais o olho vazado na direção do jovem.
-Como a senhora sabe?
-A Madame Zuleika vê tudo, sabe tudo! Vê presente! Vê passado! Vê futuro! – após esse ponto a voz da “Madame” se transformou apenas num murmurar incompreensível, agudo e dotado de inúmeros “Zs” até o momento onde ficou mais nítida e possível de distinguir o final do falatório – Por que a Madame não é uma dessas trambiqueiras que só fala coisa boazinha, porque se tem que falar as coisas ruins ela diz também.
-Então a senhora pode me ajudar? – falou Arthur levantando-se do chão da carroça.
-Sim, sim... A Madame Zuleika pode te ajudar sim... Mas para a Madame poder te ajudar ela precisa que você traga pra ela uma coisa antes, pra poder desenrolar o teu svadarma – esse termo foi mencionado com uma entonação misteriosa - que ta tudo enrolado assim numa bola... – enquanto disparava essas palavras ela encolhia os ombros e gesticulava com as mãos, como se segurasse um novelo de lã.
-E o que seria? Eu irei buscar!
-Ah sim, a busca... Para isso você deve enxergar os nós do svadarma que tem em você e se perguntar “O que eu preciso?” Qual é aquela coisa que você sabe que pode te levar pelos caminhos distantes do sansara em busca de uma jornada tranqüila e livre de nós? – Após isso ele faz uma pausa como se esperasse por alguma resposta reflexiva e antes mesmo do jovem poder falar continuou. – E então você deve trazer isso para a Madame, para que ela possa ver o que você realmente procura, para que você mesmo possa desenrolar os nós do svadarma puxando as linhas e desenrolando fiozinho por fiozinho até compreender o motivo da sua viagem. Por que a Madame sabe o por que você está aqui, mas será que você sabe?
- Eu quero conhecimento, verdade e aventuras! – disse resoluto o jovem Arthur.
-Sim eu te disse isso!
Sem saber se ela havia dito isso mesmo enquanto falava palavras complicadas e dissertava sobre nós e jornadas Arthur falou:
-E a senhora poderá me dar isso tudo?
-Eu queria, eu queria, mas antes da Madame poder te ajudar com o que você procura, você deve trazer para a Madame o que você julga importante para a sua jornada e assim a Madame poderá aconselhar sabiamente sem o receio de enrolar os fios do teu svadarma ainda mais, ou talvez ser mal compreendida guiando você pelos escuros caminhos do sansara.
Por alguns instantes houve um silêncio desconcertante no lugar, como se a velha aguardasse pela resposta do jovem e o jovem tentasse compreender as palavras da velha.
-Então a senhora quer que eu traga algo que simbolize a minha viagem? É isso?
-Isso, isso... É um rapaz muito inteligente, quase um jati. O que corta o coração da Madame é que você é um pouco franzino, mas a Madame vai preparar um caldo gordo cheio de sustância para você ficar parrudo e garboso. Venha, venha. Vamos para perto da fogueira Juarez. Primeiro descanse e amanhã parta para buscar aquilo que ajudará a Madame a desenrolar o teu svadarma.
- Ahn, meu nome é Arthur... – disse um tanto tímido.
- Sim, eu sei... – disse ela indo em direção à fogueira com um andar que muito se assemelhava ao dos pingüins que o senhor Schultz imitava.
Arthur e a velha sentaram-se próximos ao fogo. Enquanto ele cutucava com o cajado as madeiras incandescentes a velha trazia da carroça alguns legumes e uma faca. Ela pôs-se a descascá-los enquanto falava sozinha, Arthur decidiu não interromper o monólogo estranho. Depois de descascar as batatas e demais legumes, pediu para que Arthur trouxesse um caldeirão. Com muito esforço ele depositou a enorme panela de ferro sobre as brasas. Após isso pediu para que ele pegasse um balde e fosse buscar água para o ensopado num córrego próximo. Enquanto obedecia às ordens da velha, recordava-se dos dias de inverno, onde saía com dois baldes presos nas extremidades de um bastão para pegar água para sua mãe no poço do vilarejo.
Algum tempo depois o jantar ficou pronto. Para sua surpresa estava realmente saboroso, tão bom quanto as tortas da senhora Leinks. Fartou-se do ensopado chegando a repetir duas vezes. A velha apenas sorria com complacência.
-Agora é hora de dormir. – disse ela – Amanhã você terá muitos afazeres.
Arthur apenas meneou a cabeça concordando. Pegou a sua mochila e deitou-se apoiado no cepo que sustentava a carroça onde a faltava a roda. Antes de preparar-se para dormir anotou em seu jornal os acontecimentos do dia tal como lembrava, acrescentando apenas alguns pequenos toques para dar maior dramaticidade ao início de sua jornada.
(acreditem ou não, continua)
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