quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Último Post do Ano

Uma garota desce de um carro, a perna, longa, estica-se para tocar a calçada e não pisar na rua, ao levantar-se completamente o vestido azul floreado ajusta-se sobre o corpo. Em uma das mãos um Milk shake, na outra livros. O rosto jovial adornado com fones de ouvido, a passada decidida. Os olhos em contrapartida, como de costume traiam o restante do corpo, não eram joviais, modernos ou decididos, eram apenas nostálgicos e silentes. Ela se aproximava com passos velozes enquanto calmamente eu acendia um cigarro sem parar de andar. Olhei rapidamente para ela, que passava, por um breve instante, breve como os olhares de mentes curiosas que apenas precisam de um lampejo de momento para formar uma idéia ou imaginar uma história. Ela passou e adentrou no terminal rodoviário, eu segui andando até a calçada. Antes porém de atravessar a rua olhei para trás e vi que ela começava a desaparecer na multidão.
O que aconteceria se eu tivesse falado com ela? O que mudaria para cada um de nós? Seria tratado como um evento forcuido ou seria lembrado num dia aleatório? O que aconteceria se tivesse ajudado ela a carregar os livros ou senão esbarrado nela e ela tivesse derramado o Milk shake? Quem poderia dizer o que seria diferente caso tivesse me atrasado e encontrado com ela ainda dentro do terminal, ou senão, qual seria a reação se eu tivesse perguntado ao menos se estava tudo bem com ela? Assim, em meio a tantas possibilidades comecei a ponderar em como as coisas seriam se elas tivessem sido diferente, não com arrependimento pelas minhas escolhas, mas com curiosidade pelas possibilidades.
Como tudo seria se eu tivesse tentado um determinado beijo ou mesmo tivesse sido rude com alguém que estimo. Se eu estivesse mais presente em ocasiões que me eram possíveis mas fiquei omisso. Como seria se aquela conversa tivesse acontecido um mês antes ou se as minhas mudanças tivessem sido diferentes? E então, como poderia ser o dia de hoje se o ontem não tivesse acontecido?

Realmente não sei e não faço a menor idéia entretanto, citando Horácio em Odes em I,, 11.8:

Tu não procures - não é lícito saber - qual sorte a mim qual a ti
os deuses tenham dado, Leuconoe, e as cabalas babiloneses
não investigues. Quão melhor é viver aquilo que será,
sejam muitos os invernos que Júpiter te atribuiu,
ou seja o último este, que contra a rocha extenua
o Tirreno: sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança,
pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido
ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã.


ou como todos conhecem e já ouviram falar:

"Carpe diem quam minimum credula postero."


As possibilidades, deixemos para o passado, para o futuro as escolhas feitas pelo momento, aproveitem cada instante da forma mais intensa. Feliz ano novo a todos os leitores do blog, nos vemos em 2010.

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