Normalmente quem lê os meus rabiscos costuma pedir para eu escrever algo, tipo: "Ah escreve um poema/conto/receita de bolo pra mim..." E dessa vez foi o inverso, ou melhor, quase, eu não pedi, mas ainda assmi algo foi escrito para mim. Então, segue abaixo algumas linhas a meu respeito escrita por uma "terceira pessoa do plural"
AMIGO INSÓLITO
Não sabe de onde veio,
Nem sabe qual o caminho a tomar.
Seus passos largos, pesados, calcanhar firme
deixam marcas nas
calçadas da vida por onde pisa.
Calado, não sabe o que é bom dia,
também não importa.
Não importa se faz sol
ou se chove. Se é dia ou noite.
Se faz frio ou calor. Também não importa.
Tem olhar perdido entre versos, poesias,
estrelas, sonhos e as histórias mirabolantes
de Neill Gaimann, um violão
mal dedilhado, um cigarro entre
os dedos e um copo de cafezinho.
Pensativo, parece estar
projetando o universo ...
Ou escondendo a imensa tristeza
que lhe foi deixada por algum fotógrafo
lambe-lambe descuidado que,
sem querer focou seu rosto e colou
sua alma num papel qualquer
carregado pelo vento.
Quando olha o mar
não é por bobeira. Nem o vê.
Seu pensar está além.
Sua imaginação transcende as águas
se perde no vácuo das ondas.
Sua concentração
transgride o horizonte,
transgride o universo,
transgride a Deus.
Nas noites de insônia, nem mesmo
um bocejo atrás do outro, o
faz dormir. Suas lembranças, suas tristezas,
suas saudades, sua vontade
de escrever param no escuro da noite.
O desânimo ou a preguiça,
habitual nestas horas, o faz levantar-se.
Sai para a noite escura e transforma-se
numa sombra qualquer. Se causa medo, não sei.
Mas caminha... caminha... caminha...
inquieto até furar o calcanhar
das meias, sem medo de um futuro
que não consegue projetar.
Esse amigo, meu melhor
amigo, não mora num casulo
como gosta de parecer
e também nunca será metamorfoseado.
Assim como brinca com
crianças, iluminando suas almas
e colocando cores nos seus olhinhos,
esconde na sua alma,
parte de sua infância.
Este o seu segredo:
acredita que nunca teve infância.
Se descobriu a causa da sua rebeldia
Disfarçada pelo cabelos despenteados,
pela sua irreverência, não conta,
não murmura e nem segreda
a seu próprio coração.
Ou se decifrou-a,
Guardou-a numa caixa, fechada
a sete chaves, escondida num lugar qualquer
perdida em meio a tantos
sonhos, desilusões e desencantos.
Quem não o conhece,
não sabe o amigo que está perdendo.
Não sabe como é bom sentar,
olhar para o nada e jogar “conversa fora”
daquelas sem começo e nem fim...
que nascem assim .... do nada...
Ou quem sabe até se arrisca em
discutir sobre a filosofia do cotidiano.
Ou falar sério sobre Goethe, seu autor preferido,
sobre Nietzsche, sobre Tolstoi,
sobre Schopenhauer...
Esse meu amigo que
me traz saudades,
também já me ofereceu lágrimas,
não daquelas de manha,
mas daquelas que
rolam silenciosas e que brotam
do fundo da alma;
Que nos trazem a dor da ausência,
da partida com um sem “até mais” combinado
sem um olhar, sem um abraço, sem um abano;
como quem vai comprar cigarros e já volta.
Da sua presença, ainda sinto
o cheiro do café e do cigarro;
das longas conversas,
sem começo e nem fim, a saudade.
Não sei se a vida nos vai
proporcionar novos reencontros,
novas alegrias, novas discussões sem fim,
ou as mesmas conversas de sempre.
Lembranças de um quase-filho
que não fiz, mas que quase fez-se por si,
e que me presenteou,
mostrando-me que ler não é apenas
juntar as letras e imaginar histórias.
É também viajar, pensar, criar, crescer,
discutir, imaginar,discordar, descobrir
o desconhecido, ver o mundo ao reverso
e até colocar palavras no papel.
Esse meu amigo tão insólito,
quase de casa, apareceu do nada
e construiu em nossas almas
seu recanto tão recatado quanto ele.
De pouca fala, prefere fazer
de contas que nunca me viu, nem no
espelho de uma poça d’água suja das ruas...
mas seu coração,
embora forçado a se mostrar indiferente,
sabe muito bem
o quanto é um bem querer.
(autora: dária cidilane lemos de brum lucchese)
Capão da Canoa/19/07/09
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